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Boicote ao Google News resultou em queda de apenas 5% do tráfego na web, afirmam jornais brasileiros



Por Isabela Fraga e Natalia Mazotte

Um levantamento da Associação Nacional dos Jornais do Brasil (ANJ) revela que houve uma queda de apenas 5% no tráfego dos websites de seus associados que seguiram a sugestão de abandonar o Google News. "Os próprios [jornais] consideraram que essa queda de 5% era um preço que valeria pagar em prol de um movimento importante que defende os princípios dos nossos direitos autorais e nossas marcas", explicou Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ, em entrevista por telefone ao Centro Knight.

“O fato é que o Google Notícias é absolutamente iirelevante no Brasil”, disse Carlos Müller, assessor de comunicacão da ANJ. “Se você entrar agora no Google Notícias e pesquisar 'presidente Dilma', você vai ver que nenhum site jornalístico dos principais jornais do país está ali”, disse Müller. “É importante destacar”, acrescentou, “que algunos portais de empresas jornalísticas permanecem lá [no Google News]”.

Os executivos de Google Brasil não estão de acordo com esta avaliação. “Muitos dos principais veículos de notícias brasileiros possuem sites que são indexados no Google Notícias”, disse Newton Neto, gerente de parceria do Google Brasil. Numa curta declaração em resposta à consulta do Centro Knight, Neto acrescentou: “Editores podem decidir se querem ou não ser indexados. Estamos comprometidos em levar conteúdo de qualidade aos usuários da forma mais simples e rápida possível, é por isso que temos parcerias com editoras valorizadas em todo o mundo que optam por se apresentar no Google Notícias".

"O rompimento [da ANJ com o Google] está na contramão de todas as mudanças produzidas pela economia e tecnologia digitais no processo de comunicação jornalística", argumentou o jornalista Carlos Castilho, em artigo publicado no Observatório da Imprensa. Doutorando no departamento de engenharia e gestão do conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina e instrutor no Centro Knight, Castilho acha que nesta briga entre jornais e Google, “ninguém ganha”.

Para o advogado Bruno Magrani, pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, trata-se de uma questão puramente comercial. "Tudo se resume a acordos comerciais", disse ele, citando o litígio entre Google e a Associação dos Editores Norte-Americanos a respeito do projeto Google Books. No final houve um acordo: decidiu-se que as editoras podem escolher participar da digitalização do Google Books.

Para a ANJ, qualquer acordo possível com o Google envolve remuneração. "O Google é uma empresa que fatura muito com publicidade e um dos ativos que ele tem para esse faturamento são os conteúdos que nós produzimos, então entendemos ser justo algum tipo de remuneração", disse o diretor executivo da associação, Ricardo Pedreira.

Mas Magrani lança outra peça no tabuleiro: as formas alternativas de acesso à informação, que podem tornar iniciativas como a da ANJ menos potentes. "Talvez, no futuro, haja uma diminuição na importância relativa dos grandes meios para o acesso à informação, com o surgimento de outros meios independentes de mídia, outras formas de as pessoas se informarem", explica o advogado. Ele nota que a lei de direitos autorais brasileira permite a reprodução de conteúdo jornalístico por outros veículos.

Na Europa, os quiprocós entre empresas jornalísticas e o Google têm levado à elaboração de leis bastante restritas de direitos autorais. Na França e na Alemanha, estão em tramitação projetos de lei que prevêem o pagamento a empresas jornalísticas que tenham seus conteúdos citados por agregadores e serviços de busca. No caso francês, o Google já ameaçou excluir os jornais franceses de sua seu site de busca caso a lei seja aprovada.

O valor da notícia

Além da exigência de remuneração financeira, há na decisão da ANJ também uma disputa por poder na cadeia de valor da indústria jornalística, na opinião do jornalista Eugenio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). "Com o surgimento dos buscadores e agregadores de notícias na internet, os jornais perderam parte importante dessa cadeia de valor. Acho que a movimentação de sair de um serviço de busca é uma tentativa de dominá-la novamente", explica Bucci.

No caso de um jornal impresso, a empresa é dona da totalidade da cadeia de valor -- da produção da notícia à entrega da publicação aos leitores. Na internet, para o conteúdo chegar ao leitor, parte desse valor fica com a indústria de telecomunicações, com a indústria de computadores e, mais recentemente, também com os intermediários como o Google.

"A questão é como vai ser remunerado o jornalismo independente", sintetiza Bucci. "[A saída dos grandes jornais do Google Notícias] pode ser um movimento infeliz, que se mostrará errado daqui a algum tempo". Mas, como ainda não há um modelo que garanta essa remuneração em longo prazo, as redações independentes têm que preservar o valor do que oferecem. No cenário que está se formando, uma matéria do New York Times acaba tendo o mesmo valor de uma matéria produzida por uma organização partidária", compara o jornalista.

Para a ANJ, essa remuneração do jornalismo independente deverá passar pela cobrança de ao menos parte do seu conteúdo, uma vez que o financiamento vindo de publicidade é muito menor no meio digital do que no impresso. "O modelo de negócios mais completo do conteúdo nas novas mídias ainda está sendo construído", afirma Pedreira.




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