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Após uma semana de escândalos, jornalismo esportivo dos EUA enfrenta exame minucioso




Reprodução do site Deadspin em matéria revelando o hoax da namorada de Manti Te'o. Fonte: Deadspin

Após uma semana de escândalos, o jornalismo esportivo nos EUA enfrenta um exame minucioso após o tratamento demasiado indulgente de seus , segundo o Poynter. A confissão do ciclista Lance Armstrong de doping e uma história bizarra sobre a falsa morte da namorada de um jogador de futebol americano agitou o mundo dos esportes esta semana e enfatizou os perigos da criação de mitos e de não checar os fatos. 

Na terça-feira, 15 de janeiro, a CBS noticiou que a apresentadora Oprah Winfrey confirmou que Lance Armstrong admitiu usar drogas de alta performance para ganhar sete prêmios do Tour de France e uma medalha de bronze das Olimpíadas. Armstrong, que fundou a fundaçao contra o câncer Livestrong, negou o doping por 13 anos antes de de admiti-lo na segunda-feira.

Na quarta-feira, 16 de janeiro, o site de esportes publicou a matéria que afirmava que a namorada do jogador do Notre Dame Manti Te’o, que teria morrido de leucemia, nunca existiu. Segundo a apuração do Deadspin, não havia atestado de óbito para provar que Lennay Kekua, a suposta mulher com quem Te’o mantinha uma relação on-line há anos, era aluna da universidade Stanford, onde o casal teria se conhecido, havia sofrido um acidente de carro ou até mesmo existido para além de alguns perfis em redes sociais. 

Declarações feitas ao jornal South Bend Tribune pelos pais de Teo’s mais tarde tornaram a história mais confusa com relatos conflitantes sobre o casal ter de fato se conhecido pessoalmente, noticiou a NPR. ALguns detratores questionaram se o caso foi uma "piada doentia", como descreveu Te’o, ou um ardil para conseguir apoio para o troféu Heisman, principal láurea do futebol americano das universidades, reportou a CNN. 

Ambos os casos demonstram os perigos de não chegar os fatos relacionados a fontes carismáticas. Buzz Bissinger, ganhador do prêmio Pulitzer, publicou um mea culpa no The Daily Beast,  “Fiz um desserviço a mim mesmo. Mais que isso, fiz um desserviço aos leitores.” 

Mas não muito após culpar Armstrong por tê-lo enganado:

“Eu não vou levar toda a culpa. Porque fui enganado por Armstrong. Fui engando quando ele me disse com tanta certeza de que estava 'em paz' com a  decisão que havia tomado de não lutar mais contra a USADA [agência antidoping dos EUA].”

O Deadspin criticou o colunista senior da ESPN Gene Wojciechowski por sua explicação para o fato de a falta de um atestado de óbito e outras bandeiras vermelhas não terem incitado uma investigação. 

Em um texto para a Slate, Josh Levin disse que a 'barriga' cometida por uma publicação respeitada e de credibilidade como a Sports Illustrated ao confirmar a veracidade da matéria deu crédito a outras publicações, e a história foi aumentando como uma bola de neve até se tornar um hoax perpetuado pela mídia

“Se a sua mãe diz que ama você, confira se é verdade. Para hagiógrafos esportivos, é mais como: se ele fizer muitos pontos, não se atreva a conferir nada.” 

Levin acusou o mundo dos esportes de não colocar Te’o no mesmo nível de apuração de outros atletas por sua suposta imagem limpa como homem religioso e educado. Levin ainda alegou que a revista investigou com entusiasmo demais a vida de outro jogador de futebol americano, Tyrann Mathieu, porque ele se encaixava na narrativa de um atleta jovem e problemático "em uma encruzilhada”.

Outros repórteres, como David Walsh, do The Sunday Times de Londres, foram contra o culto do herói. Walsh, autor de vários livros críticos de Lance Armstrong, disse à NPR que “estava tentando dizer que esse cara, que vocês e o mundo vêem como um ícone do câncer e o maior ciclista da história do Tour de France - para mim, ele é uma fraude.”

David Griner escreveu no Poynter que a falta de apuração foi sintomática do maior problema enfrentado pelo jornalismo esportivo, a busca por uma boa história. "Todos os jornalistas adoram contar uma boa história, mas a cobertura de esportes tornou-se dependente disso.” 

Griner pediu mais transparência e responsabilidade dos jornalistas que não conferem suas matérias, bem como mais apuração nas reportagens e "autorreflexão sincera".

Timothy Burke, um dos repórteres que revelou a verdadeira história de Te’o story, disse ao Poynter que ficou chocado e triste quando viu que demorou tanto tempo para a mídia simplesmente buscar o nome de Kekua no Google para checar a matéria. “Talvez [seja um] reflexo do papel menor que o jornalismo investigativo desempenha atualmente que nós tenhamos sido os primeiros a investigar essa história.” 



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