Knight Center
Knight Center

Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Notícias sobre vídeo que supostamente mostra prefeito de Toronto usando crack geram debate sobre ética jornalística




Robert Ford. Photo via Wikimedia Commons.

Reportagens alegando que o prefeito da maior cidade do Canadá foi filmado fumando crack com traficantes de drogas têm gerado um intenso debate sobre corroborar informações de fontes e pagar por informação na era digital.

Gawker, um site de Nova York, e Toronto Star, maior jornal do Canadá em circulação, informaram em 16 de maio que Rob Ford, o polêmico prefeito de Toronto, foi visto e filmado com um smartphone fumando uma pedra de crack e e fazendo insultos homofóbicos contra Justin Trudeau, líder do Partido Liberal do Canadá, e filho do ex-primeiro-ministro Pierre Trudeau.

John Cook, editor-chefe do Gawker, disse ter visto o vídeo e também alegou na CBC Radio que entrevistou pessoas que estavam presentes quando Ford supostamente fumava crack. Sem verba pra comprar o vídeo quando o assistiu em Toronto, Cook retornou a Nova York e lançou o que o site chamou de "Crackstarter", uma campanha on-line de crowdfunding para levantar 200 mil dólares para comprar o vídeo. Mais de 8 mil pessoas ajudaram Gawker a conseguir a quantia, mas o site perdeu o contato com o intermediário que representa os donos do vídeo. Cook deu aos proprietários do vídeo cerca de um mês para entrar em contato com o Gawker.

Os repórteres do Toronto Star Kevin Donovan e Robyn Doolittle também assistiram ao vídel de 90 segundos três vezes no banco de trás de um carro estacionado em um bairro de Toronto em 3 de maio. Em um relato de suas discussões com a sua fonte, que levou os jornalistas aos traficantes de drogas que querem um pagamento de pelo menos "seis números" pelo vídeo, os jornalistas admitiram que não poderiam autenticar o vídeo, mas a iluminação era boa e a imagem na tela era "cristalina". Eles concluíram que era o prefeito Ford. Perto do final do vídeo, Ford aparentemente olha para a câmera e diz: "É melhor esse telefone não estar ligado".

Depois de dias de silêncio, Ford finalmente negou as notícias no dia 24 de maio em uma coletiva de imprensa, dizendo que não usa crack nem é viciado, de acordo com o Toronto Sun. Quanto ao vídeo, Ford disse: "Eu não posso comentar sobre um vídeo que eu nunca vi ou não existe".

No que diz respeito à ética jornalística em torno do vídeo e da prática de pagar por notícias, Jian Ghomeshi da CBC Radio recentemente organizou um debate entre Jeffrey Dvorkin, ex-jornalista sênior da NPR e CBC Radio e atual diretor de um programa de jornalismo na Universidade de Toronto, e Cook do Gawker. Dvorkin repreendeu Cook por não verificar o vídeo: "A essência do jornalismo é a verificação. Não houve verificação aqui.". Cook respondeu que simplesmente relatou o que viu: "Repórteres testemunham as coisas e escrevem sobre elas."

Dvorkin, que falou em termos jornalísticos tradicionais, observou que a verba levantada no "Crackstarter" seria entregue para traficantes de drogas. "Como você sabe que o dinheiro não está indo para um grupo de pessoas que vão, então, usar o dinheiro para comprar armas?", perguntou a Cook.

Cook respondeu com convicção que o prefeito Ford usa crack e seu irmão mais velho é um ex-traficante e que é "absolutamente rotineiro" para agências de notícias dos Estados Unidos comprar vídeos de fontes.

Ghomeshi censurou Cook por fazer os "standards" jornalísticos soarem como uma coisa ruim. A referência foi à espera até 16 de maio para informar sobre o vídeo que os repórteres do Toronto Star viram no dia 3 de maio, enquanto o Globe and Mail aguardou 18 meses antes de publicar sua reportagem investigativa sobre supostas ligações dos irmãos de Ford com drogas ilegais.

"Eu acho que é uma coisa ruim" - Cook respondeu - "se esses standards ficam no caminho de um relato honesto sobre o seu prefeito e eu acho que neste caso foi o que aconteceu."

Ethan Zuckerman, diretor do MIT Center for Civic Media e co-fundador do Global Voices, observa que "não só o conselho editorial do Gawker tomou a decisão de que é eticamente admissível pagar pelo vídeo de Rob Ford", mas também o fizeram os milhares de financiadores da campanha "Crackstarter". Isto deixa Gawker vulnerável à possibilidade de que a maioria desse fundo tenha vindo de opositores de Ford, abrindo a questão de se o jornalismo financiado coletivamente se tornará um fórum dominado pelos ricos e famosos. "Eu estou mais curioso para saber se os doadores vão compartilhar o crédito e a responsabilidade se o jornalismo que paga suas fontes com dinheiro arrecadado via crowdfunding se tornar a próxima grande coisa", disse Zuckerman em seu blog.

Na Forbes, J. Maureen Henderson sarcasticamente aplaudiu Gawker por sua inteligente iniciativa comercial: crowdfunding repassa o risco aos leitores caso pagar traficantes não dê certo, e isso destaca "os veículos de notícia mainstream ao dar uma verdadeira aula sobre o novo modelo de jornalismo iterativo - publique agora, aperfeiçoe ou corrija mais tarde".



No comments

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
By submitting this form, you accept the Mollom privacy policy.






Assine aqui a nossa newsletter semanal!

Nome Completo

Email *
Selecione as listas que deseja subscrever
Boletim Semanal (Português)

Boletín Semanal (Español)

Weekly Newsletter (English)
email marketing
by activecampaign

Facebook

Comentários recentes