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Agência Pública levanta recursos do público para financiar reportagens investigativas independentes no Brasil



A iniciativa é inédita no Brasil: distribuir bolsas de reportagens investigativas independentes a partir de fundos arrecadados de forma coletiva na internet, o já conhecido crowdfunding. A Agência Pública anunciou na última sexta-feira, 20 de setembro - um dia antes do prazo final - que conseguiu o valor necessário no site Catarse para ter seu projeto financiado.

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"Esperávamos que o projeto fosse bem sucedido, mas não pensávamos em números. Ele superou bem as nossas expectativas, pois além do grande número de financiadores, conseguimos cerca de R$10 mil a mais do que o mínimo. Estamos muito contentes", comemorou Natália Viana, diretora da Pública, em entrevista com o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas

O Reportagem Pública teve mais de 800 colaboradores e levantou mais de R$ 58 mil para financiar a produção de reportagens investigativas. Para cada real doado, a Pública receberá mais um real da Fundação Omydiar, no chamado "matching funds". Todos que doaram para o projeto agora são membros de um conselho editorial que vai votar nas pautas inscritas pelos jornalistas. Inicialmente, estavam previstas 10 bolsas de R$6 mil, mas Viana afirma que o sucesso da "vaquinha" virtual vai possibilitar a distribuição de mais bolsas. 

Segundo ela, o interesse dos jornalistas tem sido grande. "O prazo final [para enviar a proposta de reportagem] será na sexta-feira, dia 27 de setembro, e já recebemos mais de 80 propostas. O grande desafio agora será fazer a pré-seleção daquelas que serão encaminhadas para votação. A Pública vai usar critérios claros: consistência na pré-apuração, experiência do repórter e capacidade de realizar reportagens de forma independente e segurança e viabilidade da investigação", explica Viana. 

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Os jornalistas interessados em inscrever pautas no Reportagem Pública podem preencher um formulário com suas ideias. As pautas selecionadas vão para o site da Reportagem Pública (atualmente em versão demo) e o prazo para votação do conselho editorial será de 7 a 20 de outubro. Depois disso, os projetos de reportagem selecionados começarão a ser tocados pelos repórteres."Faça uma bela apuração prévia e pense em como apresentar sua pauta de maneira interessante para o público leigo. Ah, uma boa foto ou vídeo fazem toda a diferença", aconselha Viana.

Em meio à crise do modelo de negócios da indústria jornalística, que vem gerando demissões em massa nas redações e cortes de investimentos em reportagens mais longas, o sucesso do projeto mostra que é viável buscar novas formas de sustentabilidade para o jornalismo independente. Segundo Viana, essa é uma aposta da Pública.  

Crowdfunding para o jornalismo

Além da proposta de bolsas da Pública, outras iniciativas bem-sucedidas dão sinais de que o financiamento coletivo pode ser uma alternativa para o jornalismo independente no Brasil. 

O Cidade para Pessoas inaugurou no país o crowdfunding em trabalhos jornalísticos, em março de 2011. Criado pela jornalista Natália Garcia, a proposta conseguiu R$25 mil para financiar uma viagem ao redor do mundo e trazer ao Brasil pistas sobre como tornar uma cidade mais habitável. Depois, uma segunda edição do projeto foi novamente financiada. O material apurado durante as viagens pelo mundo está sendo publicado na forma de reportagens em texto e vídeos no site Cidade para Pessoas.
 
A ONG Repórter Brasil conseguiu arrecadar mais de R$20 mil com o projeto Arquitetura da Gentrificação, que busca investigar as ações tomadas pelas duas últimas administrações municipais de São Paulo que resultaram na expulsão de moradores pobres da região central da cidade. 

O site de jornalismo independente Viomundo também começou a levantar dinheiro dos leitores para ajudar a manter o site livre editorialmente e produzir cinco reportagens. Até o momento, uma das pautas já foi financiada. 

Outros três projetos de documentários sobre assuntos de interesse público receberam apoio coletivo para sair do papel: "Belo Monte – Anúncio de uma Guerra", sobre a construção da polêmica hidroelétrica no rio Xingu, teve 3.429 apoiadores e levantou mais de R$140 mil; "Domínio Público", investigação do investimentos feitos para a Copa do Mundo e as Olímpiadas especialmente no Rio de Janeiro que conseguiu mais de R$106 mil de 2.042 apoiadores; e “O Renascimento do Parto”, sobre a realidade obstétrica brasileira, que levantou mais de R$140 mil com a ajuda de 1.228 pessoas.

Além destes, projetos de jornalismo cidadão e comunitário, como o "Amigos de Januária", para treinar repórteres cidadãos a fiscalizar gastos públicos e divulgá-los na rede, e o "A notícia por quem vive", para produzir o jornal comunitário de moradores da favela carioca Cidade de Deus, também já foram financiados coletivamente. 




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