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Críticas do presidente do Equador e ameaças de seus apoiadores levam ao fim de conta satírica no Facebook



Os enfrentamentos entre o presidente Rafael Correa e a imprensa privada do país, organizações não governamentais e até cidadãos que expressam desacordos com o mandatário são de público conhecimento. Contudo, esta semana tais enfrentamentos voltaram a gerar o repúdio de organizações nacionais e internacionais depois que o administrador de uma conta satírica de Facebook e Twitter, crítica ao presidente Rafael Correa, decidiu encerrá-la após receber ameaças de morte.

Em 19 de fevereiro, o administrador da página conhecida como ‘Crudo Ecuador’ publicou uma foto de um ramo de flores e de uma nota anônima com ameaças que chegaram à casa onde ele se encontrava depois dele receber ameaças pelas redes sociais.

Mensagem de Crudo Ecuador. Captura de tela.

A nota intimidatória o identifica com nome e sobrenome e diz “que bom ter a oportunidade de cumprimentá-lo e felicitá-lo por tão bonita família, sua esposa […] e o que dizer de seus dois lindos filhos […], que sem dúvida enchem de alegria seu lar; com satisfação tenho que confessar que é para mim um prazer que estejam na querida província de Guayas, disfrutando de suas merecidas férias, o que trará um momento de relaxamento, que significa uma pausa em tanto estresse por suas ‘não tão acertadas atividades’, acredite que sempre contará con nosso interesse e atenção, enquanto durar sua valentia…”.

Na noite desse mesmo dia, o administrador da página publicou um texto com o título “Senhor Presidente, #vocêganhou”, anunciando o fim das contas e suas razões. “Me retiro porque você se encarregou de semear ódio contra mim, confundindo as pessoas quando falava sobre minha página, omitindo que há publicações sobre outros políticos […] e não só ‘contra você’, como afirma”, diz parte do texto. Nele, o autor também agradece aos que o apoiaram “moralmente” e pede que entendam “que em um país onde se ataca publicamente os direitos humanos, não se pode continuar, um indivíduo é minúsculo perante o poder do Estado”.

Esta mensagem dirigida ao presidente Correa é decorrente de vários comentários feitos pelo mandatário contra a conta em alguns de seus programas semanais Enlaces Ciudadanos – transmitidos a cada sábado por rádio e televisão onde o presidente se dirige à nação para prestar contas. Contudo, o programa também tem servido para fazer críticas e acusações contra meios de comunicação, jornalistas, representantes de ONG, opositores, tuiteiros, entre outros.

No programa de 24 de janeiro, por exemplo, o presidente ameaçou revelar a identidade e o rosto do dono da conta satírica, e o acusou de fazer campanha de “desprestígio sistemática com sátira e ironia” e de “mentir e difamar” com o objetivo de prejudicar sua imagem, segundo a organização Fundamedios. O presidente havia dito “vamos encontrar essa pessoa para ver se vai ser tão engraçado quando todo mundo souber quem é [...] para ver se segue sendo tão valente [...] é um simples covarde que se esconde no anonimato para insultar e dirigir seu ódio [...] é um covarde e logo saberemos quem é e o país o conhecerá”.

Após estas declarações, o administrador recebeu uma série de ameaças de morte em sua conta de Twitter. O ministro do Interior, José Serrano, apresentou à Procuradoria Geral uma denúncia por intimidação contra este cidadão. Por sua conta de Twitter, Serrano escreveu que tal entidade “tem como política a proteção de todo direito humano sem importar sua ideologia”.

No entanto, o presidente Correa em seu programa de 7 de fevereiro insistiu em sua “batalha” nas redes sociais e acrescentou que a seus críticos “continuará dando do seu próprio remédio”. Assegurou que seus nomes, fotos e contas serão conhecidos “para ver se gostam do que fazem a outros”, segundo Fundamedios.

Com isso, o anonimato que o administrador de ‘Crudo Ecuador’ havia mantido terminou quando no Twitter partidários do governo revelaram não apenas sua identidade, mas também a de sua esposa e publicaram fotos de um suposto monitoramento em um shopping, acrescentou a Fundamedios.

Ameaça enviada ao usuário Crudo Ecuador. Foto: Facebook Crudo Ecuador.

Apesar de ter condenado, em seu programa de 21 de fevereiro, a ameaça que levou ao fim de ‘Crudo Ecuador’ e observado que “houve um excesso” neste caso, o presidete relacionou a ameaça a pessoas interessadas em prejudicar seu governo

A situação ocorre em meio a uma campaha liderada pela presidência chamada Somos mais, cuja página web é “um espaço para que os cidadãos se unam à luta para terminar com os abusos das redes sociais”. Nela também se busca revelar a identidade dos usuários que utilizam a red com pseudônimos.

Sobre o caso específico de ‘Crudo Ecuador’, a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) manifestou sua preocupação com a ameaça sofrida por seu administrador e instou o governo do Equador a “levar em conta as consequências que podem ter as declarações estigmatizantes feitas por funcionários do governo na vida e integridade das pessoas”. 

A Relatoria Especial recordou o “dever do Estado de criar as condições que permitam a diversidade, o pluralismo e o respeito” pela difusão de todas as ideais e opiniões como condição fundamental das sociedades democráticas. Também recordou a importância do discurso anônimo, que está protegido pelo direito à liberdade de pensamento e expressão, assim como pelo direito à vida privada, por “favorecer a participação das pessoas no debate público já que – ao não revelar sua identidade – podem evitar ser objeto de represálias injustas pelo exercício de um direito fundamental”.

Já em ocasiões anteriores a Relatoria Especial havia destacado que os funcionários públicos devem assegurar que suas expressões não sejam – como coloca a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) – “formas de interferência direta ou indireta ou pressão lesiva nos direitos de quem pretende contribuir com a deliberação pública mediante a expressão e difusão de seu pensamento”.

Em 2013, Fundamedios expressou preocupação pelo crescente clima de hostilidade no país, que havia gerado um aumento das agressões contra jornalistas, meios de comunicação, ativistas de direitos humanos, blogueiros, tuiteiros e vários cidadãos. Algumas destas agressões também foram registradas pela Relatoria Especial em seus relatórios anuais.

Em 22 de fevereiro, dias antes do fim de ‘Crudo Ecuador’, o administrador de outra página satírica no Facebook conhecida como ‘Ecuatoriano hasta las huevas’ foi ameaçado por um usuário que o advertiu que receberá flores e “será o seguinte”, informou o administrador, de acordo com a Fundamedios. 



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