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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

ISOJ 2016: Yoani Sánchez explica como a tecnologia ampliou as liberdades dos cubanos



Uma memória USB ou flash drive representa a liberdade para muitos cubanos. Assim falou Yoani Sánchez, blogueira e jornalista cubana fundadora do site de notícias digital 14ymedio, durante o painel de abertura do segundo dia do 17º Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ na sigla em inglês).

“Isso é muito mais que um dispositivo tecnológico. Este pequeno objeto que cabe em um bolso, isso é a liberdade”, disse Sánchez. “Para muitos cubanos, esta é a diferença entre estar informado ou desinformado, entre o silêncio ou a palavra, entre a censura ou fazer jornalismo”.

Durante sua apresentação, Sánchez explicou à audiência de ISOJ os desafios para fazer jornalismo digital em um dos lugares “com menos conectividade à internet” do mundo – aproximadamente 5% da população têm acesso, segundo Sánchez – e como os cubanos utilizaram a tecnologia disponível e criatividade para superá-los.

Janine Warner conversa com Yoani Sánchez durante sua apresentação no ISOJ 2016. Foto: Mary Kang/Centro Knight.

Segundo Sánchez, pelas condições de seu país, os cubanos aprenderam a usar o mercado ilegal para conseguir desde medicamentos até comida. “e da mesma forma temos feito com a informação”.

O que em princípio pareceu um rumor, graças à tecnologia evoluiu até “verdadeiras redes ilegais de transmissão de informação” por meio de flash drives, discos rígidos externos, CDs e outros dispositivos.

“Estes são os grandes liberadores da informação em Cuba. E a infraestrutura que permite hoje que o monopólio estatal sobre a imprensa seja quebrado”, disse Sánchez ao mostrar um flash drive. “Pouco a pouco os cubanos começaram a ser cidadãos virtuais em um país onde ainda não pudemos ser cidadãos reais”.

Foi neste cenário que em maio de 2014 14ymedio nasceu como um veículo nativo digital, não porque foi uma escolha, mas porque “era a única opção”, diante da certeza de que o Governo não daria permissão para imprimir um jornal, disse a jornalista.

Desde sua criação, Sánchez e sua equipe tinham claros seus objetivos. O primeiro deles era conseguir independência econômica que não condicionasse sua linha editorial porque “queremos poder nos queixar de Raúl Castro e de Barack Obama”. Para conseguir recorreram a diferentes estratégias como planejamento de eventos, publicidade e logo lançaram um "projeto de assinaturas amigável”.

Outro de seus objetivos era legalizar de alguma maneira sua situação, então foram buscar as brechas da lei que lhes permitissem trabalhar. Tendo em conta que em Cuba o jornalismo é uma dessas profissões que não se pode desenvolver por “conta própria” (ou seja, trabalhar de maneira privada), segundo explicou Sánchez, encontraram que a mecanografia é uma das profissões que não tem restrições.

“Decidimos que nossa equipe de trabalho trabalharia sob uma licença de mecanógrafo. É isso que somos: mecanógrafos que mecanografamos nossas próprias ideias”, disse Sánchez com um tom de humor.

Seu outro objetivo era oferecer variedade de informação que lhes permitisse um afastamento da constante “contradição” que os meios não oficialistas do país mantêm com o Governo. Assim oferecem desde notícias culturais até temas como o exilio cubano e os preços dos produtos da cesta de compras familiar.

Após quase dois anos, o veículo passou por sua “prova de fogo”, jornalisticamente falando, quando no mês de março deste ano seus jornalistas tiveram que cobrir dois eventos históricos: a visita do presidente Obama a Cuba, e o show da banda britânica The Rolling Stones.

Apesar de ter passado na prova, continua tendo problemas com a conectividade. Como explicou Sánchez “temos um diário digital e nós mesmos não estamos conectados”.

Por isso recorreram a outras estratégias não apenas para poder publicar, mas para poder chegar aos cubanos. Sua ferramenta mais importante é o e-mail, já que é um dos poucos espaços que a conexão da ilha permite. Segundo Sánchez, a maior parte da informação de 14ymedio é distribuída por email.

Mas também não esquecem os que não podem acessar a internet. Por meio de flash drives, entregam semanalmente uma edição de 14ymedio em formato PDF para distribuição clandestina pelas esquinas de La Habana. Agora inclusive estão chegando a outras cidades com a mesma modalidade. Outra maneira de chegar a seus leitores é por mensagens de texto.

“Pouco a pouco construímos uma audiência, mas queremos mais. Esse é o año em que 14ymedio quer dar o salto ao mundo audiovisual”, afirmou Sánchez, que explicou que entre seus planos futuros está ter seu próprio estúdio, criar um noticiário, desenvolver o jornalismo de dados para tentar terminar com o sigilo de quase 50 anos, além de ter seu próprio aplicativo, já que o celular é o “canal de comunicação talvez mais importante dos cubanos”.

Apesar dos obstáculos para fazer jornalismo em Cuba, Sánchez e sua equipe estão convencidos da importância do jornalismo para o futuro diferente que buscam para seu país.

“Temos uma grande preocupação com quem serão as pessoas que vão votar e decidir o futuro de Cuba. Sempre me perguntam […] 'quem vai ser o próximo presidente de Cuba?’, digo ‘eu não sei. Me preocupa quem vão ser os próximos cidadãos’", disse Sánchez. “Esses cidadãos precisam de informação para eleger. Porque se não tiverem informação, vão eleger mal. Vão eleger o discurso mais populista, o que faça o canto da sereia, que minta e seja mais carismático na tribuna. Se tiverem informação, vão poder eleger outra coisa.

“Então 14ymedio quer ser o jornal da transição cubana. Acompanhar os cidadãos da ilha nesse processo que viveremos inevitavelmente e felizmente”, finalizou Sánchez. 








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