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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Jornalistas venezuelanos criam projeto de dados abertos para combater a falta de acesso à informação no país



Na Venezuela, um país onde as restrições à imprensa estão na ordem do dia e o acesso à informação pública não é garantido por lei, estar informado sobre as decisões do governo pode ser problemático. Por isso, o Instituto Imprensa e Sociedade (IPYS) Venezuela junto à Transparência Venezuela estão lançando Vendata, uma plataforma online que busca oferecer de maneira simples a informação contida na Gaceta Oficial, uma espécie de Diário Oficial do país.

A Gaceta, meio de comunicação através do qual o Estado publica suas normas, resoluções, ordens administrativas e atos, “é o único imperativo que devem cumprir diariamente os que governam. Na Gaceta Oficial está tudo”, observa um comunicado da equipe de Vendata.

Foto: cortesía Dagne Cobo Buschbeck/equipo Vendata.

De acordo com as coordenadoras do projeto, as jornalistas venezuelanas Katherine Pennacchio e Arysbell Arismendi, tornar a informação mais acessível será de grande ajuda para os jornalistas venezuelanos.

“Poderíamos falar por horas sobre os desafios enfrentados por um jornalista na Venezuela para obter informação”, disse Arismendi ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas por e-mail. “Mas dentre as mais importantes estariam: a negativa das fontes oficiais a dar informação. Normalmente se autoriza um só porta-voz a dar informação oficial, o que torna o processo de obtenção de dados mais burocrático. Não há uma lei de acesso à informação. Por isso, o Estado e organismos públicos não se veem na obrigação de disponibilizar dados”.

Em seu relatório anual 2015, a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos enfatizou o fato de que o país continua sem adotar uma lei de acesso à informação pública e afirmou que “foi reportada a negativa de publicar ou entregar informação sobre assuntos de inquestionável interesse público, como a saúde ou a situação das contas públicas”. A Relatoria também registrou casos em que a justiça do país recusou recursos para garantir o acesso à informação.

O objetivo principal da equipe Vendata é se tornar a plataforma de dados mais importante da Venezuela. Para isso, a equipe está criando um motor de busca e uma enorme base de dados abertos disponíveis para jornalistas, pesquisdores e público em geral, apresentada de tal maneira que a informação possa ser compreendida e reutilizada, segundo Arismendi. A plataforma web teria também uma API (application program interface) pública para permitir que a información contida em Vendata possa ser lida e cruzada com outras bases de dados.

Vendata está em fase de execução e IPYS Venezuela está buscando voluntários para ajudar a organizar os dados. Escola de Dados, uma organização de alfabetização de dados, está ajudando a difundir informação sobre o projeto a possíveis colaboradores e a sucursal da organização no México deu assessoria ao projeto quando este ainda estava em sua fase inicial, disse Pennacchio.

No momento, 20 pessoas de diferentes profissões e regiões da Venezuela estão extraindo informação das Gacetas. Pennacchio também disse que espera fazer o lançamento oficial do projeto em julho.

“Qualquer pessoa que deseje colaborar com o projeto, só precisa contar com internet em sua casa, um computador e muita paciência”, disse Arismendi. “Para otimizar a subida e alcançar a meta, a equipe de Vendata também realizou encontros para liberar dados em Caracas e, ao mesmo tempo em que se extraía as informações, os participantes aprendiam a usar ferramentas de scraping que podem ser úteis nos seus campos”.

O scraping (raspagem) consiste em extrair informação de documentos. Como as edições da Gaceta estão guardadas em arquivos PDF, os dados extraídos ficam "sujos" e sem um formato estruturado, por isso a equipe teve que ajustá-los manualmente, contou Pennacchio. Os documentos são muito grandes, difíceis de entender e de ler.

Foto: cortesía Dagne Cobo Buschbeck/equipo Vendata.

Isso significa que as informações sobre a nomeação de um embaixador, a aprovação de uma lei para aumentar o salário mínimo ou as taxas de juros do Banco Central da Venezuela poderiam estar enterradas nas longas Gacetas, explicou Arismendi.

Colaborar com o projeto, acrescentou Arismendi, significa ir contra a cultura pouco cooperativa que há na Venezuela.

“Outra dificuldade que encontramos é que na Venezuela o conceito de ‘colaboração’ não está tão arraigado como em outros países”, ressaltou Arismendi. “Não tem sido simples conseguir pessoas que se animem e se comprometam a participar. Contudo, estamos fazendo todo o possível para que essa tendência mude. Esperamos contribuir com o crescimento na Venezuela de uma cultura de dados abertos”.

Além das dificuldades na compreensão dos documentos ou na criação de um ambiente colaborativo, a equipe Vendata tem que enfrentar problemas técnicos.

“A plataforma que utilizamos para reunir a informação está em versão Beta, por isso vamos encontrando erros e a melhorando a medida que a utilizamos. Estamos aprendendo com tentativa e erro.  Da mesma maneira, Venezuela tem a largura de banda de conexão à Internet mais baixa da região, isso nos afeta consideravelmente e tem atrasado o trabalho”, afirmou Arismendi.

A equipe Vendata espera continuar trabalhando pela transparência na Venezuela. Depois de raspar a informação das Gacetas, Arismendi disse que farão o mesmo com outros documentos oficiais que se encontram em formatos não reutilizáveis.








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