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"Jornalismo não é incompatível com ativismo": Jineth Bedoya, Prêmio Coragem de reportagem internacional



Jineth Bedoya Lima é talvez uma das jornalistas mais premiadas da Colômbia. Tanto a sua carreira jornalística de 20 anos como a sua dedicação ao ativismo, nos últimos anos, para erradicar a violência contra as mulheres, foram reconhecidos por organizações nacionais e internacionais.

Em seu currículo, Bedoya Lima conta com prêmios como o Prêmio de Coragem no Jornalismo, da International Women’s Media Foundation (IWMF), o Prêmio International Women of Courage, do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa no Canadá, e a Organização de Jornalistas Ibero-americanos a premiou pelo seu trabalho contra a violência de gênero em 2016.

No entanto, o Prêmio Fleischaker/Greene para a Coragem em Reportagem Internacional, que receberá em 4 de outubro, é para ela um dos mais especiais, pelo “valor adicional” que tem.

In 2009, Jineth Bedoya Lima created the campaign 'It's not time to shut up' to fight violence against women. Photo: courtesy of El Tiempo.

O prêmio, concedido pela Universidade de Western Kentucky (WKU por suas siglas em inglês), busca reconhecer os jornalistas internacionais que tenham demonstrado coragem e valentia ao reportar sobre temas sociais. O ganhador do prêmio é escolhido pelos estudantes e professores da universidade.

“Quando os alunos que estão estudando comunicação ou alguma profissão correlata têm uma pessoa como referência e decidem fazer uma homenagem, eu acho que é algo de valor inestimável”, disse Bedoya Lima em entrevista ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas. “Creio que este [prêmio] é um dos mais especiais que, sem dúvida, vou receber na minha vida, e vou a Kentucky cheia de muito orgulho e, além disso, cheia de muito orgulho de ser colombiana e do trabalho de reportagem dos jornalistas colombianos ser destacado dessa maneira."

Bedoya Lima gosta de pensar que, cada vez que recebe um reconhecimento, o prêmio não é só para ela, mas de várias pessoas. Nesse caso, Bedoya Lima aponta os repórteres do país que, segundo ela, têm um trabalho muito difícil, especialmente nas redações regionais. Por esse motivo, deseja que "sintam que esse reconhecimento também é deles, porque fazem um trabalho muito sacrificante que eu particularmente considero muito importante".

Apesar de apreciar o valor do jornalismo colombiano, ela também tem críticas para o trabalho que se faz atualmente no país devido à falta de amor pela profissão. Por isso, a sua mensagem de aceitação do prêmio sugere que os estudantes se apaixonem pelo jornalismo, especialmente pelos impactos sociais que a profissão pode ter.

“A mensagem está focada em algo muito importante, eu sempre acreditei nisso e isso salvou a minha vida: eu me apaixonei pelo jornalismo. Quem se dedica à comunicação tem que entender que é preciso se apaixonar, é preciso sentir o que se faz, que quando você senta para escrever um texto, que quando sai da redação para fazer uma entrevista, é preciso se colocar no lugar de quem está diante do seu gravador, da sua câmera ou do caderno de anotações", explicou.

“E obviamente dizer a eles que o jornalismo sempre está ligado às causas sociais, mesmo que você não acredite. Na escola te ensinam que um jornalista têm que manter a imparcialidade e a objetividade. Esqueça! O jornalismo transforma sociedades, e que bom seria se os jornalistas tivessem consciência disso. É isso o que eu comprovei, quando decidi unir jornalismo ao ativismo, à causa social, e consegui alcançar muitas coisas. É isso que eu gostaria que os jornalistas jovens fizessem."

As causas sociales que Bedoya Lima cobriu como jornalista e defendeu como ativista  incluem, principalmente, os crimes do conflito armado colombiano, assim como a violência contra as mulheres.

Uma dessas causas Bedoya Lima leva muito enraizada, já que, como ela afirmou, o horror da guerra ficou gravado em seu corpo. Na porta de uma prisão em Bogotá, onde estava para entrevistar um líder do grupo paramilitar Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) para um trabalho jornalístico no ano 2000, foi sequestrada, torturada e violentada sexualmente por membros da AUC. Depois foi abandonada em uma estrada do país.

Desde então, e sem deixar seu trabalho jornalístico, tem lutado para conseguir justiça.

Nesses 16 anos, as suas investigações, assim como as informações da Procuradoria, explica ela, apontam que pelo menos 27 pessoas estariam envolvidas no crime. No entanto, só três foram levadas à Justiça, acusadas de serem autores do crime. Ela afirma ainda que “nem todas as pessoas participaram das ações materiais”.

Photo: El Tiempo

“Mas os mandantes do sequestro e de tudo o que aconteceu seguem impunes", disse. “Os seus nomes não foram divulgados, não foram processados, não têm processos na Justiça colombiana, e esse é um dos pontos de impunidade mais fortes no caso e que, sem dúvida, afeta muito a mim, à minha família e ao meu círculo social”.

Ela disse que as suas próprias investigações comprovaram que houve participação do Estado no crime. Diante das poucas respostas que recebeu por parte do governo, em 2011 apresentou o seu caso na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) onde foi realizada uma audiência em abril.

Já com todos os recursos esgotados na CIDH, neste momento a Comissão está decidindo se o seu caso deve chegar até a Corte Interamericana de Direitos Humanos para que ela determine sanções, se for o caso, contra o Estado colombiano.

Ela teve algumas vitórias. Conseguiu, por exemplo, que o ato fosse declarado como crime contra a humanidade, evitando que prescreva. O governo também estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia Nacional para a Dignidade das Mulheres Vítimas de Violência Sexual em sua homenagem. E ainda que tenha recebido uma indenização, decidiu devolver o valor, porque não acredita que um “um cheque possa comprar a dor de uma família”.

O que viu na sua carreira e o que viveu na sua própria carne a levaram a criar, em 2009, a campanha ‘Não é a hora de calar’, com o objetivo de incentivar as mulheres vítimas de violência a denunciar os crimes.

Para ela, o seu ativismo em alguns temas não é contrário ao jornalismo, mas ressalta que devem ser mantidos alguns limites.

“Há uma linha muito tênue que não se pode cruzar: quando a pessoa começa a usar o jornalismo como ação política, no sentido de política partidária. O jornalismo não pode se misturar com interesses econômicos, ou de política partidária, ou com interesses religiosos, porque então ele perde o rumo", afirma Bedoya Lima.

“Mas quando o jornalismo é usado para dar visibilidade, para potencializar comunidades, acredito que é completamente válido. E, no meu caso, acredito que o jornalismo me serviu para dar visibilidade a um dos crimes mais cruéis que se segue cometendo no mundo e que, segundo as Nações Unidas, é a segunda pandemia que a humanidade enfrenta: a violência contra as mulheres".    

“Temos que manter uma certa distância, manter margens éticas, mas, sem dúvida, não há que se pensar que o jornalismo não é compatível com o ativismo ou com as causas sociais. Acredito que, se os jornalistas da Europa, vestissem um pouco a camisa das causas sociais ajudariam muito mais os imigrantes, os deslocados e todos os refugiados da Síria, por exemplo”.

Paz e jornalismo da Colômbia

Como vítima do conflito armado, a paz na Colômbia também tem sido uma prioridade de Jineth. Quando em dezembro de 2015 foi assinado o acordo sobre as vítimas como parte das negociações entre o governo e as FARC, Bedoya atuou como porta-voz das vítimas ao ler a declaração em nome delas.

Jineth Bedoya Lima. Photo: courtesy of El Tiempo.

Além disso, em 26 de setembro esteve presente na assinatura do acordo de paz final como uma das vítimas do conflito. E, ainda que neste 2 de outubro os colombianos não tenham aprovado o plebiscito sobre o acordo do governo com a guerrilha, a jornalista disse em seu Twitter que é preciso seguir lutando pela paz.

No entanto, reconhece que os jornalistas, como vítimas do conflito armado, têm estado "muito marginalizados" do processo de paz. Ainda que exista um capítulo especial na Unidade de Vítimas dedicado aos jornalistas, Jineth acredita que isso é "o que menos avançou".

“Tem havido muito respaldo para casos individuais, como o de Jaime Garzón, como o meu, como o de Claudia Julieta Duque, mas não para os jornalistas em geral. Não os consideram abertamente como vítimas do conflito. Ao contrário, um setor muito grande da sociedade civil acha que os jornalistas foram vilões no conflito, algo muito complicado de discutir, argumentar e defender, justamente por essa responsabilidade que nós tivemos com os veículos no meio do confronto".

“Acho que não foi dado o papel e o lugar merecido ao jornalismo como vítima de toda essa guerra, porque sem dúvida tivemos muitos mortos, ameaçados, sequestrados e exilados. Ainda falta que o país e o Estado reconheçam o dano que se causou ao jornalismo durante o conflito".

A cerimônia do Prêmio Fleischaker/Greene vai acontecer às 6:30 p.m. [hora central dos Estados Unidos] e será transmitida ao vivo em inglês. Para assistir à cerimônia, acesse o link aqui.  




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