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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Site peruano lança plataforma trasnacional com dados do tráfico ilegal de bens culturais da América Latina



Memoria Roubada” é uma pesquisa que gerou a primeira plataforma jornalística reunir dados massivos sobre o tráfico ilegal de objetos culturais dos países latino-americanos. É um projeto do site de jornalismo investigativo peruano Ojo Público, que convidou quatro importantes veículos da região a participar dessa pesquisa transnacional e colaborativa.

Piezas arqueológicas, Perú. Foto vía Ojo Público

A equipe de jornalistas, documentaristas, artistas gráficos e programadores do Ojo Público se uniu a repórteres do Plaza Pública da Guatemala, La Nación da Costa Rica, Chequeado da Argentina e Animal Político do México. Todos trabalharam em conjunto durante seis meses nesse ambicioso projeto cuja série será publicada em duas partes, com enfoque regional, e várias notas com enfoque nacional en cada país dos veículos participantes.

“A pesquisa começou com casos no Peru, mas rapidamente ficou claro que as pistas eram cortadas nas fronteiras do país. Assim como outros temas do crime organizado, o tráfico de patrimônio cultural só pode ser entendido com um olhar global”, disse David Hidalgo, diretor do Ojo Público, ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas.

Assim, afirmou Hidalgo, essa pesquisa trasnacional “revela os números e casos mais graves do tráfico de patrimônio cultural da América Latina que conecta desde antiquários e políticos em Buenos Aires até narcotraficantes na Guatemala, e desde colecionadores suspeitos no México até diplomatas na Costa Rica e Peru”.

Além disso, a base de dados desse especial jornalístico, que é de livre acesso, também é o primeiro censo de bens de patrimônio cultural roubados, leiloados e repatriados do Perú, Guatemala e Costa Rica. É uma ferramenta de busca de dados e documentos de uso livre que facilita o cruzamento de informação para identificar peças roubadas, vendidas e recuperadas na região.

A idea é que a base seja enriquecida progressivamente com a contribuição de novos veículos de outros países que se interessem no tema para completar o panorama no continente e no mundo.

Para desenvolver essa ferramenta jornalística, uma base de dados foi construída com mais de dois milhões de dados em quatro categorias: roubos, vendas, registro e repatriações.

Fabiola Torres, editora de análise de dados do Ojo Público, afirmou ao Centro Knight que não existe uma base de dados global acessível e atualizada sobre o patrimônio cultural roubado, os agentes envolvidos e nem sobre os bens recuperados. “Diferentemente dos serviços de bases de dados de arte privadas, com fins comerciais, Memória Roubada é de livre acesso e tenta rastrear os esquemas trasnacionais de tráfico ilícito de bens culturais da América Latina para os Estados Unidos e Europa”, explicou Torres.

Captura de pantalla de Memoria Robada en el diario La Nación, Costa Rica.

Por exemplo, na sua segunda entrega – que inclui informação verificada pelo Ojo Público e seus colaboradores com as diferentes instituições e entidades oficiais e privadas da região – mostram um antiquário uruguaio que comercializava obras roubadas em seu negócio na Argentina e que segue impune, em liberdade. Também revelam a conexão de três diplomatas envolvidos com o roubo de objetos de patrimônio cultural e uma família de falsos importadores de artesanatos caputurados nos Estados Unidos.

Além disso, a pesquisa inclui dois documentários curtos de alguns casos emblemáticos. Um deles, por exemplo, revela a rota do tráfico de um raro manuscrito religioso do século XVIII, em quechua (língua indígena), roubado da Biblioteca Nacional do Peru. Graças a uma pesquisadora, o manuscrito foi encontrado por acaso na biblioteca Dunbarton Oaks, um centro de pesquisa em Washington, D.C., que pertence à Universidade de Harvard.

O caso do roubo de tal documento, que envolve bibliotecários cúmplices no Peru, coloca novamente sob suspeita o mercado de antiguidades na Argentina e revela a admissão pouco rigorosa de valiosas peças do patrimônio cultural latino-americano por parte de grandes centros culturais dos Estados Unidos.  

A plataforma desse especial jornalístico, desenvolvida pela equipe de programação do Ojo Público, reúne informação cruzada de distintas fontes, incluindo as 39 mil obras de arte roubadas de 132 países e relatadas à Interpol, assim como relatórios dos Ministérios da Cultura e Procuradorias do Peru, Guatemala, Costa Rica, México e Argentina.  

A análise dessa informação permitiu, por exemplo, identificar casas de leilão de 14 países que venderam peças que saíram ilegalmente da América Latina. “O volume de peças latino-americanas vendidas a colecionadores das principais capitais do mundo é inclusive maior do que os 4.907 objetos culturais que a Interpol busca agora como roubados em toda a América do Sul, América Central e México”, revela um dos textos que fazem parte da série Memória Roubada.   

Como produto dessa investigação também foi incorporado à plataforma o registro oficial de 268 mil bens de patrimônio cultural do Peru. Além disso, foi possível identificar que entre 2008 e 2016, foram roubados 7 mil bens culturais somente do Peru, e que apenas uma parte foi devolvida pelas autoridades de 22 países. Também houve devoluções para Guatemala e Costa Rica.

Para conseguir tudo isso, as equipes de jornalistas dos cinco veículos, sob a direção e coordenação de Hidalgo e Torres, solicitaram a liberação de milhares de documentos através de pedidos de acesso à informação pública no Peru, Guatemala, Costa Rica, Argentina e México. Somente em Lima, foram 112 pedidos de acesso à informação aos Ministérios da Cultura e de Relações Exteriores, às Forças Armadas e polícia, entre outras instituições públicas.

Captura de pantalla de Memoria Robada en Plaza Pública, Guatemala.

“Essa é uma pequena amostra da verdadeira dimensão do problema, mas é uma contribuição importante, pois, em muitos dos nossos países, essa informação não está organizada ou acessível", afirmou Hidalgo.

Para adiantar um pouco do que há pela frente, Torres disse que na próximas entregas haverá uma análise profunda sobre as raízes do problema.

O projeto de Ojo Público contou com a colaboração financeira das organizações International Women’s Media Foundation (IWMF) e Fund for Investigative Journalism.








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