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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

A Liga Contra o Silêncio na Colômbia quer vencer a autocensura



“Vamos te fazer uma confissão: na Colômbia os jornalistas publicam muito menos do que sabem”. Assim começa o vídeo promocional da rede de jornalistas colombianos, criada recentemente, chamada A Liga Contra o Silêncio. Através da sua primeira atividade, a Liga busca recursos suficientes para cobrir os temas que mais são atingidos pela autocensura no país.

A confissão dos jornalistas não busca criar polêmica. O que a Liga deseja é gerar debate e soluções para um dos problemas mais graves que enfrenta o jornalismo colombiano, especialmente no interior do país: a autocensura.

Uma censura imposta por grandes grupos de poder, econômicos ou armados, que na base do medo e do dinheiro têm contado a sua verdade. Nos últimos 40 anos, por exemplo, foram assassinados 153 jornalistas por seu trabalho, afirma o vídeo.

“Sabemos que existe a autocensura como conceito, fizemos muitos estudos sobre isso, mas pouco se avançou para superar o problema, disse Pedro Vaca, diretor executivo da Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP), em conversa com o Centro Knight. “A Liga Contra o Silêncio não é mais do que o encontro de distintos meios de comunicação, que de alguma forma são novos, e que além de ter uma agenda como meios estão preocupados com a situação de censura e autocensura na Colômbia”.

A FLIP, organização que promoveu a Liga, pensou na iniciativa no marco dos seus 20 anos de existência. O objetivo é que essa rede de jornalistas cumpra, entre outras metas, a de compensar o “déficit de monitoramento por parte dos meios de comunicação da situação da censura” que, segundo Vaca, existe na Colômbia.

Os veículos e jornalistas que fazem parte da Liga chegaram ao limite da sua paciência e estão dispostos a lutar contra a autocensura.

Por isso, em 14 de dezembro, na sua primeira atividade oficial, a Liga organizou uma festa como uma “desculpa para encontrar as pessoas que estão preocupadas” com a autocensura no país e “para falar sobre os temas dos quais os venezuelanos não estão bem informados ou os assuntos mais afetados pela autocensura”, disse Vaca.

A festa, que também é uma forma dos veículos se encontrarem com as suas audiências, tem como principal objetivo arrecadar fundos que permitam a esses meios viajar para regiões mais distantes e cobrir os temas que costumam sofrer com a autocensura.

“A ideia é que nós, os veículos envolvidos, busquemos fazer esses temas e falar daquilo que jornalistas de determinados lugares não falam, por motivos compreensíveis. Não porque sejam jornalistas medíocres ou algo do estilo, mas porque na realidade a autocensura se exerce quando há motivos importantes como ameaças ou riscos muito altos de agressões e até de homicídio”, explicou Daniel Salgar, membro da equipe criadora da coluna de opinião em vídeo La Pulla, do jornal El Espectador, para o Centro Knight.

La Pulla se transformou em um programa de muito sucesso, especialmente entre as audiências mais jovens, afirmou Salgar. Este ano recebeu o Prêmio Nacional de Jornalismo Simón Bolívar, segundo ele. Com um formato que usa humor, desde fevereiro deste ano os seus jornalistas têm "falado com clareza" dos temas da agenda nacional.

Por isso Salgar espera que a festa atinja muitos dos seguidores que o programa tem nas mídias sociais, cujo apoio permitiria solucionar um dos problemas recorrentes dos meios independentes: financiamento.

Além do ingresso para a festa, que tem um custo, o evento terá diferentes atividades que incluem rifas, leilões de trabalhos de caricaturistas e fotógrafos reconhecidos, venda de bebidas, entre outras.

No entanto, conscientes de que o seu público pode ser muito jovem, provavelmente de estudantes, estabeleceram preços econômicos.

“Vamos fazer atividades pensadas para esse público”, explicou Alejandro Gómez Dugand, diretor da revista 070, ao  Centro Knight. “A cerveja, por exemplo, uma pessoa pode escolher por que quer tomar essa cerveja. Por exemplo, ‘eu quero tomar esta cerveja, mas quero também doar o dinheiro desta cerveja para falar da mineração no [estado de] Cauca ou para falar do corte de árvores no Chocó’”.

Tanto para Vaca como para Salgar e Gómez, a conquista mais importante será conseguir que os seguidores digitais desses meios se façam presentes no mundo analógico e, assim, consigam entender um pouco mais as dinâmicas do jornalismo colombiano.

Para Gómez, um dos aspectos mais relevantes da Liga é abordar um dos problemas mais complicados do jornalismo no país. Gómez não desconhece a violência que atinge a muitos jornalistas, mas considera que há mecanismos na Colômbia que, de alguma forma, têm tentado lidar com a questão. No entanto, para ele, o mesmo não ocorre com a censura.

Imagen: FLIP.

“A autocensura é um tema muito mais complexo. É muito mais difícil convencer um jornalista do interior, principalmente, que ataque os problemas, porque ele sabe que atacar certos assuntos pode significar muitas vezes problemas para ele”, assegurou Gómez. “Há uma questão da autocensura que muitas vezes não é somente violência, mas também é comercial. Há regiões inteiras que vivem de uma única empresa, de uma fábrica, de uma única indústria, e falar dessa indústria é se meter com os donos das economias da região. Então é um tema muito difícil”.

A Liga deseja conseguir ao menos 300 participantes da festa e conseguir publicar os resultados dos trabalhos em 2017. E ainda que saibam que é um trabalho difícil, têm expectativas muito grandes para a sua rede.

“Estamos contentes de fazer parte da Liga, que não vai durar o que dura a festa”, disse Salgar. “A ideia é que cresça e que funcione como uma rede de colegas para dar visibilidade a temas relacionados à liberdade de expressão, como é o caso da autocensura, mas tomara que no futuro sejam muitos outros”.

“Mesmo que o valor arrecadado não seja o que esperamos, o fato de que a campanha foi criada e de que conseguimos juntar tantos veículos em uma só iniciativa, em um país em que tantos meios trabalham como ilhas independentes, é muito interessante. E ao invés de nos considerarmos como correntes, nós nos entendermos como um ecossistema em que juntos podemos fazer coisas importantes", concluiu Gómez.

Os veículos que fazem parte da iniciativa convocada pela FLIP são: La Pulla do El Espectador, a revista 070 do Centro de Periodismo de la Universidad de los Andes, Actualidad Panamericana, Estereotipas, Hoja Blanca, La Silla Vacía, Vice Colombia e Verdad Abierta.

Clique aqui para saber como participar do evento.








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