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Noticiário peruano em quechua busca reivindicar o uso de uma das línguas mais antigas do mundo



O quechua, assim como o grego e o hebraico, é uma das línguas ancestrais do mundo que continua vigente. Ainda que o idioma ainda seja falado em grande parte de Peru, Bolívia e Equador, além de algumas regiões de Colômbia, Chile e Argentina; a rapidez com que seu uso está se perdendo é vertiginosa.

Desde o dia 12 de dezembro de 2016, é transmitido a nível nacional o primeiro noticiário feito completamente em quechua da história da televisão peruana. Esta iniciativa foi proposta pelo jornalista e escritor Hugo Coya, logo depois que assumiu o cargo de diretor do Instituto Nacional de Rádio e Televisão (IRTP) do Peru, em agosto de 2016.

“Ñuqanchik” (em português, “Nós”) é o novo noticiário peruano, que em seus dois primeiros meses no ar já está sendo bem acolhido entre os falantes de quechua do país.

“Por ser um feito inédito, este se apresenta como um grande desafio. Primeiro, porque não temos tanto pessoal capacitado. Os cinegrafistas, diretores de câmera e técnicos de edição falam espanhol. Estamos vivendo um processo de transição bem interessante”, disse Coya ao Centro Knight, um dia depois do lançamento do noticiário.

Por existirem vários dialetos quechua, foi necessário incluir parte desta variedade em Ñuqanchik, contou Coya. Para encontrar os apresentadores se convocou um casting no qual participaram cerca de 200 jornalistas que tiveram o quechua como língua materna.

Marisol Mena, Carol Ruiz e Clodomiro Landeo, do Ñuqanchik. Foto: Carol Ruiz

A escolhida foi Marisol Mena, que também ensina quechua na escola, que fala a variante de Cusco-Collao, do sul do Peru. O segundo apresentador é Clodomiro Landeo, que também é falante do quechua de Cusco, além do de Ayacucho-Chanka, dos Andes centrais. Landeo é apresentador na Rádio Nacional há 11 anos, e consultor de quechua do Ministério da Cultura.

Para Coya, pelo fato de o Peru ser um país multilíngue e pluricultural, um dos grandes problemas nacionais é a desinformação e a falta de comunicação.

A informação também dá dignidade, argumentou Coya. “É um direito humano estar informado. Esta decisão (de fazer o noticiário em quechua) é como dizer: ‘Vocês têm o mesmo direito que todos a estarem informados, e com a informação objetiva podem tomar suas próprias e melhores decisões para suas vidas”, adicionou.

O quechua, falado majoritariamente no Peru desde o início do século XX, é um idioma inclusivo que não faz distinção de gênero. "Para o quechua, todos somos seres humanos", disse Coya.

Para esta iniciativa, Coya falou com vários especialistas, desde psicólogos, lingüistas, especialistas do ministério da Cultura, jornalistas, entre outros.

“O lançamento do Ñuqanchik provocou um verdadeiro entusiasmo a nível nacional e internacional”, declarou Coya. Vários meios de comunicação e portais do mundo, como Le Figaro, El País, BBC, The Guardian, Democracy Now, CNN en Español, entre outros, publicaram a notícia do lançamento do noticiário em quechua.

Recentemente, a produtora do noticiário, Carol Ruiz, disse ao Centro Knight que por meio das redes sociais eles recebem muitas mensagens de pessoas que acompanham o Ñuqanchik a nível nacional. “Algumas pessoas já têm nos pedido para legendarmos o noticiário, porque se sentem excluídos. (…) Mas se legendarmos o noticiário (em espanhol) ele perderia o sentido para o qual foi criado”, disse Ruiz.

Nas últimas semanas, disse Ruiz, tem se adicionado ao noticiário dois segmentos novos, para que também se tenha um espaço cultural que resgate a dança e a tradição andina e da selva, além de um espaço dedicado exclusivamente ao clima. Este último, em particular, disse Ruiz, é um tema de interesse cotidiano para a população que fala quechua, já que muitos são agricultores, pecuaristas, camponeses, e é útil saber se haverá chuvas fortes ou baixas drásticas de temperatura.

A antropóloga peruana especialista no mundo quechua Zoila Mendoza, professora e catedrática da universidade UC Davis da Califórnia, nos Estados Unidos, disse ao Centro Knight que o Ñuqanchik também pode ser visto como uma estratégia de revitalização do quechua, que apesar de falado por vários milhões, está se perdendo com rapidez.

Desde 2009, o quechua está incluído na lista do Atlas das Línguas em Perigo da Unesco, por estar ameaçado de extinção. A esse respeito, o então diretor da Unesco, Koichiro Matsuura, disse: “A morte de uma língua supõe ao mesmo tempo o desaparecimento de um legado cultural, desde poemas e lendas até ditados e piadas”.

Dos 30 milhões de peruanos, apenas 4 milhões são falantes de quechua, e outros 6 milhões falam castelhano e quechua, segundo Coya. Ou seja, quase 13% da população continua a falar quechua.

"Este reconhecimento também mostra um certo respeito e intenção de negligenciar a marginalização social e étnica no Peru, que muitas vezes pode ser ilustrada por uma zombaria da linguagem e dos falantes de castelhano com sotaque quechua. Além disso, com o idioma se revaloriza a cultura e as práticas sociais dos falantes de quechua ".

A apresentadora do Ñuqanchik, Mena, disse ao Centro Knight que é um sonho tornado realidade poder fazer chegar informações factuais de importância a todos os irmãos e irmãs falantes de quechua.

"É definitivamente uma experiência única e histórica tanto pessoalmente, quanto profissionalmente. Assumir essa grande responsabilidade para mim é um desafio. (...) São muitos anos que foram deixadas ao esquecimento as línguas nativas do meu país, que também têm sofrido escárnio e discriminação ", enfatizou Mena.“



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