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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Site de notícias venezuelano faz sucesso com vídeo no Periscope enquanto muitos migram para o Facebook Live



Esta história é parte de uma série sobre Jornalismo de Inovação na América Latina e Caribe (*)​


Quando o Periscope foi lançado em março de 2015, veículos impressos e digitais viram a oportunidade de cobrir eventos ao vivo e em tempo real, uma área antes dominada pelas empresas de televisão.

Cidadãos e jornalistas podia usar igualmente o aplicativo de vídeo online para transmitir simultaneamente protestos antigoverno, confrontos com a polícia ou outras notícias de última hora. O fato de que o Twitter tenha adquirido o Periscope pouco antes do lançamento da função significou que uma rede de distribuição estava garantida.

Mas a rápida evolução da tecnologia significou que o Periscope seria rapidamente substituído pelo Facebook Live, que oferecia características extras e veio acompanhado de uma agressiva campanha para o mercado de tecnologia.

Enquantos muitos sites latino-americanos mudaram as suas transmissões em tempo real para o Facebook Live, um veículo venezuelano decidiu não seguir essa tendência: Efecto Cocuyo.

O site independente Efecto Cocuyo enfrenta a resistência de algumas autoridades que não querem ser gravadas nas ruas. (Captura de tela)

O site de notícias de política, economia e direitos humanos, cuja redação é um pequeno escritório em Caracas, surgiu em 2015 diante da necessidade de meios independentes que combatessem o bloqueio informativo no país.

Pelas características da sua audiência e a situação da Venezuela, Efecto Cocuyo encontrou no Periscope a ferramenta ideal para levar ao público imagens que os meios audiovisuais tradicionais não estavam transmitindo.

"As pessoas que começaram a se conectar ao Twitter quando ele chegou na Venezuela tinham muitas opiniões em todas as áreas, e essa mídia social começou a ter um perfil informativo, enquanto o Facebook tem um perfil mais de uma rede familiar, de amigos", disse Luz Mely Reyes, jornalista e co-fundadora do Efecto Cocuyo, ao Centro Knight.

Efecto Cocuyo nasceu no Twitter, em janeiro de 2015, antes mesmo de ter seu próprio site, de forma que consolidou a maior parte de sua audiência nessa mídia social. Até 12 de abril, enquanto o veículo tinha 15 mil seguidores no Facebook, o seu perfil Twitter ostentava 179 mil.

Aproveitando a sua base de seguidores e o impulso do Periscope em todo o mundo, em meados de 2015, Efecto Cocuyo começou com transmissões simples de protestos, confrontos e acontecimentos políticos, com um investimento mínimo em smartphones e planos de dados 4G.

"Desde que começamos com o Periscope, tivemos 420 transmissões. Como mídia, estamos entre os que têm mais seguidores, temos mais de 20 mil no Periscope e somos pioneiros nesse campo", disse Reynaldo Mozo, jornalista e gerente comunitário do Efecto Cocuyo, ao Centro Knight.

Atualmente, suas transmissões no Periscope atingem uma média de 3 mil usuários conectados, embora sua transmissão de maior sucesso - a participação do cantor Miguel Ignacio Mendoza, da dupla Chino y Nacho, em um protesto contra o presidente Maduro em 10 de abril de 2017 - tenha registrado 61.100 visualizações em dois dias.

A transmissão de maior sucesso do Efecto Cocuyo foi a participação do cantor Ignacio Mendoza "Nacho" em um protesto contra o governo venezuelano. (Captura de tela)
 

O site lançou o programa "Con la Luz" em fevereiro de 2017. No programa, Luz Mely Reyes apresenta entrevistas e debates de cerca de uma hora sobre temas políticos e sociais na Venezuela. O programa transmite exclusivamente via Periscope toda sexta-feira às 6 da noite.

"Não temos a possibilidade de ter um espaço na televisão, por isso oferecer uma visão diferente da hegemonia dos meios de comunicação tradicionais também pode ter um impacto, porque as pessoas gostam de ver diferentes pontos de vista", disse Reyes, cujo episódio de "Con la Luz" de maior sucesso foi uma entrevista de 30 de março com a ex-deputada María Corina Machado, que superou os 18 mil espectadores.

"Isso foi produto da experimentação. Começamos a fazer balanços gerais das situações do país e, quando vimos que isso era bem recebido, pensamos: 'vamos testar um pouco mais'", afirmou Reyes. "Mas não se trata de 'periscopiar' tudo, o que acreditamos ser 'periscopeável' são os fatos que não estão sendo transmitidos pela mídia tradicional".

Para a equipe de Efecto Cocuyo, a chave do impacto das suas transmissões é que eles apresentam os fatos de maneira simples, mas ao mesmo tempo os cobrem com o rigor que o jornalismo exige.

"O Periscope nos ensinou que é inútil ir a um protesto e apenas transmitir e mostrar o que está acontecendo com as imagens e pronto.Temos que responder às cinco questões básicas do jornalismo. Periscope nos obriga a explicar como tudo está funcionando para as pessoas que estão vendo por seus telefones", disse Mozo.

Com todas as suas vantagens, o Periscope também apresenta grandes obstáculos, particularmente em países como a Venezuela. A conexão de internet com redes de dados, mesmo usando wifi, é instável no país. Além disso, os repórteres têm seus equipamentos subtraídos constantemente durante a transmissão de marchas ou protestos, ao ponto de que os smartphones se tornaram um produto de consumo que eles têm que comprar com freqüência.

“Um telefone desse tipo é roubado em qualquer lugar. Agora usamos três Motorola de quarta geração que encontramos com um bom preço. Na Venezuela não podemos ter iPhone ou Samsung porque são muito caros,” disse Reyes.

Dada a situação política e social na Venezuela, Efecto Cocuyo também tem enfrentado violência e a resistência das autoridades em relação às suas transmissões. Vários de seus repórteres foram espancados durante os protestos e, em um dos vídeos mais populares do site, Luz Mely Reyes recentemente foi interrompida por uma policial ao transmitir longas filas em um posto de gasolina.

"Pela Constituição, qualquer pessoa tem o direito de gravar e tirar fotos de qualquer fato que acontece em público", disse Reyes. "Os policiais estão com medo porque em um ano 176 policiais uniformizados foram mortos. Para se proteger, eles não gostam de ser gravados, mas eles realmente não podem nos impedir de gravar um fato que está acontecendo em público."

O Periscope não apenas emulou a função jornalística da televisão. Na Argentina, uma estação de rádio usou a plataforma para enriquecer as suas transmissões. E fortalecer a relação que conseguiu construir com o seu público ao longo dos anos.

Ao longo das suas oito décadas de história, a Cadena 3, uma emissora com sede em Córdoba, conseguiu manter a fidelidade e a interação com seu público, mesmo antes do surgimento das mídias sociais. Com a chegada do Periscope, o canal conseguiu levar essa interação para outro nível.

"A nossa proposta não era fazer televisão na rádio ou filmar a rádio. Entendemos que há novas linguagens por meio das quais podemos contar histórias, melhorar as informações ou as histórias que são contadas no rádio ", disse Máximo Tell, membro da equipo de mídias sociais da Cadena 3, ao Centro Knight. “Vamos continuar fazendo rádio porque é a nossa forma de pensar notícias e as histórias, mas agora temos elementos que nos permitem ampliar esses momentos”.

Em junho de 2015, a emissora começou uma experiência de um ano para transmitir os destaques de sua programação via Periscope e envolver os usuários na transmissão de rádio. A maioria dos ouvintes da Cadena 3 tem entre 40 e 65 anos de idade, enquanto alguns locutores têm mais de 70 anos. No entanto, os ouvintes e os anfitriões, mesmo com uma tradição arraigada do rádio, quebraram a barreira geracional e se adaptaram à nova plataforma.

"O Periscope serviu para nos mostrar que podemos estender as histórias com a lógica que o rádio já usa, que é de conversar com os ouvintes", disse Tell. "Queríamos contar histórias transmitindo áudio e vídeo ao vivo com as ferramentas da mídia social, mas de forma "mobile". Isso foi pensado em nosso discurso, em nossa narrativa".

A emissora argentina Cadena 3 conseguiu ótimos números com as suas transmissões no Periscope, mas se mudou para o Facebook Live (Captura de tela).

A Cadena 3 conseguiu acumular 22.600 seguidores no Periscope e suas transmissões atraíram uma média de 2 mil espectadores. No entanto, no final de 2016, a emissora transferiu as suas transmissões ao vivo para o Facebook Live, principalmente porque eles poderiam estender o alcance de sua audiência a um nível maior com essa rede.

"Os números com Periscope eram bons, mas depois sucumbimos e mudamos para o Facebook Live por uma questão de alcance de massa. O Facebook é a rede onde as pessoas estão em grande número. Fora os jornalistas, que gostam mais do Twitter, as pessoas estão no Facebook e ponto. E temos que produzir onde as pessoas estão", disse Tell.

A equipe descobriu que o fato das transmissões ficarem disponíveis na sua linha do tempo do Facebook facilitava que os seguidores pudessem encontrar e consumir esse conteúdo. Além disso, a plataforma de Mark Zuckerberg oferece métricas mais eficientes.

A informação que permite aos meios de comunicação social conhecerem o nível de interação com os seus seguidores e o impacto das suas emissões é um fator importante na decisão de utilizar uma plataforma ou outra. O veículo descobriu que o Facebook Live oferece números mais específicos sobre a quantidade de seguidores adquiridos e perdidos por transmissão, bem como mais informações sobre o público.

O jornal mexicano El Financiero vê a diferença nas métricas fornecidas pelo Periscope e pelo Facebook Live diariamente. Em janeiro deste ano, o jornal começou uma colaboração oficial com o Twitter para cobrir os primeiros dias do governo de Donald Trump.

Para esta colaboração, o jornal usa a hashtag #100DíasDeTrump e cria um "Moment" semanal (o recurso do Twitter que permite aos usuários fazer uma compilação de tweets sobre o mesmo tema na forma de uma história). Além disso, transmite um programa de análise via Periscope que foi apresentado por Victor Hugo Michel, diretor editorial da El Financiero Bloomberg TV. O objetivo é ver como os usuários mexicanos reagem nas redes sociais aos primeiros passos do novo presidente dos Estados Unidos.

"Periscope ou Moments não fornecem muita reflexão sobre qual é o impacto da sua transmissão. Às vezes você tem que fazer adivinhações sobre por que algo funcionou em um determinado momento e por que não funcionou em outros", disse Irasema Pineda, diretora de mídias sociais do El Financiero, para o Centro Knight. "Twitter, Periscope e Moments fornecem números crus de como foi o seu desempenho naquela semana, enquanto no Facebook é mais claro quantas pessoas potencialmente receberam a sua publicação por compartilhamentos, por tags".

Víctor Hugo Michel, diretor editorial do El Financiero TV, é o apresentador do programa que o jornal mexicano transmite toda sexta-feira no Periscope. (Captura de tela)

As transmissões no Periscope do El Financiero, que ocorrem toda sexta-feira, atingem uma média de 2.500 espectadores. Até agora, o veículo tem 31 mil seguidores na plataforma. No entanto, é difícil para a equipe do jornal mexicano medir o impacto de sua cooperação.

"No Facebook crescemos organicamente muito bem, mas no Twitter é mais difícil.Tudo o que nos ajuda a crescer no Twitter é bem-vindo, e é por isso que nós fizemos esse acordo", disse Pineda. "Eu não ousaria dizer que [a cooperação com o Periscope] não adicionou nada, eu só acho que não podemos saber, por causa do tipo de métricas do Twitter."

O Periscope não está disposto a ceder terreno aos seus concorrentes. Assim, em um esforço para reter mídia em sua plataforma, o aplicativo lançou em abril duas novas maneiras de medir audiências: uma nova aba para ver quantas pessoas estão interagindo com suas transmissões e um painel com métricas mais detalhadas, incluindo dados como o tempo de reprodução por usuário, número de "corações" (ícones que os usuários podem clicar para "gostar" de uma transmissão) e número de espectadores.

"O Periscope é uma plataforma natural para o conteúdo jornalístico ao vivo devido às suas características em tempo real, abertas e públicas. A notícia se espalha de forma mais rápida e eficiente na plataforma, tornando-a uma ferramenta chave para as organizações de mídia na América Latina ", disse ao Centro Knight, Leonardo Stamillo, diretor de parcerias de conteúdo em notícias na América Latina do Twitter.

Além disso, desde o final do ano passado, o Periscope oferece aos seus parceiros de mídia a possibilidade de conectar dispositivos externos às suas transmissões, como switchers ou câmeras profissionais, como o Facebook já permitia.

"É natural que os parceiros de mídia testem diferentes ferramentas. No entanto, por suas características naturais e ambiente ao vivo, o Twitter é o primeiro e melhor lugar para cobertura de notícias ao vivo", afirmou Stamillo.


(*) Esta história é parte de um projeto especial do Centro Knight que é possível graças ao apoio generoso da Open Society Foundations. A série "Jornalismo de Inovação" cobre novas tendências de mídias digitais e melhores práticas na América Latina e Caribe.

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