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ISOJ 2017: Palestrantes da mídia independente discutem problemas e soluções para reportar em sociedades polarizadas



Durante o sempre popular painel internacional, participantes vieram de todo o mundo para o 18º International Symposium on Online Journalism (ISOJ) para compartilhar desafios e soluções para fazer reportagens em sociedades polarizadas.

Krissah Thompson, redatora do Washington Post, apresentou os palestrantes e moderou o painel "Accountability journalism in polarized societies around the world" (Jornalismo de prestação de contas em sociedades polarizadas ao redor do mundo), durante o segundo dia do ISOJ, realizado em Austin, Texas.

Esquerda para a Direita: Martín Pallares, Carlos Fernando Chamorro, Luz Mely Reyes, Ivan Kolpakov, Stevan Dojčinovic, e Krissah Thompson. (Mary Kang/Knight Center)
 

O primeiro palestrante foi Carlos Fernando Chamorro, fundador e diretor do Confidencial, na Nicarágua. Para Chamorro, a polarização da sociedade se deve ao governo autocrático do atual presidente do país, Daniel Ortega, e à supressão dos meios de comunicação.

"Desde que Ortega subiu ao poder ele não deu coletivas de imprensa. Há proibições para dar informações à imprensa independente", disse ele. "Na Nicarágua não há prestação de contas, não há estado de direito, então a imprensa independente é a única instituição que pode desempenhar esse papel de promover a prestação de contas".

A falta de acesso do Confidencial à informação pública não impediu a organização de divulgar notícias de qualidade, disse Chamorro.

"Cerca de 90% das estações abertas de televisão e rádio são controladas pela empresa da família presidencial e seus sócios privados", disse ele. "Para desenvolver nossa própria agenda jornalística, cultivamos fontes independentes, principalmente baseadas na confiança e na ética profissional".

Para sobreviver à era da polarização, Chamorro disse que a credibilidade não deve ser perdida.

"Nós lutamos todos os dias contra a pressão da autocensura", disse ele. "Eles tentam nos desacreditar dizendo que somos parte do partido da oposição. Portanto, manter a credibilidade é o número um."

Na Sérvia de Stevan Dojčinović, a polarização ocorreu nos últimos quatro anos, depois que elegeram um presidente populista conservador em 2012. Desde então, Dojčinović, editor-chefe da KRIK.rs, tem continuamente reportado sobre a política polarizada de seu país.

A mídia sérvia é especializada em crimes e denúncias de corrupção para manter a pressão sobre os políticos, mas o site enfrenta atualmente grandes desafios que incluem:

  • (Auto)Censura da mídia: "Não há uma única estação de TV ou jornal que estejam prontos para publicar qualquer tipo de crítica", disse Dojčinović.
  • Uma sociedade polarizada: "A metade da sociedade sempre vota (no primeiro-ministro Aleksandar Vučić) e outra parte da sociedade o vê como um ditador".
  • Nenhum dinheiro de publicidade: "Não é impossível, como uma mídia independente, obter dinheiro publicitário. A questão é que a maioria das empresas privadas têm medo de anunciar em mídia independente, porque vão estar sob pressões do governo."
  • Um ambiente inseguro: "A atmosfera que o governo está criando através de campanhas de difamação pode mobilizar os cidadãos que estão à margem a enviar ameaças aos jornalistas ou mesmo atacá-los".

A chave para romper com as audiências polarizadas é manter as reportagens de qualidade e alcançar públicos de espectros opostos, Dojčinović adicionou.

"Se, por exemplo, você relatar contra Trump para apoiadores da Hillary, é claro que você pode informá-los de novos casos", disse ele. "Mas é muito importante encontrar uma maneira de abordar uma audiência que é pró-governo e contra nós".

As reportagens independentes não são tarefa fácil na Rússia, onde as notícias são inteiramente deprimentes, disse Ivan Kolpakov, co-fundador e editor-chefe do Meduza. Kolpakov também foi severo ao esclarecer que a mídia independente, também conhecida como a imprensa livre da Rússia no exílio, está baseada na Letônia, mas relata eventos russos.

"Um russo é uma pessoa que está permanentemente deprimida. O seu humor geralmente depende das notícias que você está consumindo", disse ele. "Então, se você é um leitor médio da mídia de internet na Rússia, você está morrendo de medo todos os dias. É como se você estivesse acordando todos os dias e hoje definitivamente não é melhor do que ontem."

O resultado da atmosfera da mídia russa é a apatia. Como resultado, lutar contra a apatia na Rússia é de extrema importância quando se reporta em uma sociedade polarizada, disse Kolpakov.

"Você tem que lutar com sua própria empatia, em primeiro lugar, não com a empatia dos leitores. Você tem que lutar com sua própria empatia contra este mundo f***", ele disse. "Todo dia, quando você entra na redação, você tem que dizer: "Vamos arrasar"".

Antes que houvesse um Trump, havia Rodrigo Duterte, disse Malou Mangahas na abertura de sua fala. Duterte, o presidente filipino, iniciou uma guerra contra as drogas que resultou em mais de 7 mil mortes de supostos usuários de drogas desde junho de 2016.

Mangahas, co-fundadora e diretora executiva do Philippine Center for Investigative Journalism, focou em como a guerra contra as drogas está dividindo o país em meio a sistemas legais ineficientes.

"O Estado de Direito é muito fraco e o sistema de justiça criminal é bastante lento nas Filipinas", disse ela.

Cobrir a guerra contra as drogas nas Filipinas corretamente é necessário para manter os funcionários públicos sob responsabilidade, mas também impedir qualquer violação dos direitos humanos, Mangahas disse.

"O ponto é que não estamos nos comunicando só com o presidente, mas também com os cidadãos", disse ela. "Precisamos conectar os pontos e os dados. Precisamos verificar, desafiar e validar o contexto e subtexto de histórias e reportar mais e melhor. "

"Quem quebra primeiro perde, e devemos nos esforçar para viver para escrever outro dia", concluiu Mangahas.

Luz Mely Reyes, co-fundadora e diretora-geral do Efecto Cocuyo, falou sobre relatar em uma sociedade polarizada, bem como os palestrantes anteriores. No entanto, ao contrário dos outros, a Venezuela tem sido um país polarizado nos últimos 20 anos, disse ela.

Uma das primeiras coisas que acontecem em uma sociedade polarizada é a guerra contra a mídia. "O dano colateral da guerra contra a mídia é a verdade e o direito de estar bem informado", disse ela.

Romper com a polarização é uma meta para o Efecto Cocuyo, mas a maneira para fazê-lo é através da construção de uma comunidade, disse Reyes.

"Quando decidimos lançar o Efecto Cocuyo, procuramos (membros da comunidade em Caracas) dizendo-lhes que queríamos ser jornalistas", disse ela. "As pessoas disseram: 'Eu vou te apoiar, mas você tem que nos ouvir, você tem que relatar o que está acontecendo na Venezuela e você tem que estar perto de nós'", disse ela. "Foi um momento de aprendizado para nós, porque aprendemos com eles."

Reyes terminou a apresentação com a sugestão de que as pessoas aprendem mais sobre a mídia independente se quiserem entender o que está acontecendo na Venezuela, porque é uma das poucas instituições que mantiveram a credibilidade no país.

"Efecto Cocuyo em inglês significa 'efeito vagalume'", disse ela. "(E) fomos inspirados por este efeito do vagalume de ser uma pequena centelha de luz, que junto a outros pode iluminar uma nação inteira."

Martín Pallares, jornalista e co-fundador do 4Pelagatos, descreveu como o governo equatoriano conseguiu normalizar o ato de fazer de reportagens em uma sociedade polarizada.

"Um dos principais propósitos dos autocratas é tornar normal o que é anormal; uma vez que eles fizeram isso, eles têm controle de tudo", disse ele. "Não era normal que o partido no poder usasse a mídia pública como propaganda, agora é normal. Não era normal que os jornais fossem punidos por não publicarem notícias que o governo acredita serem relevantes".

No início do mês, o observatório da imprensa equatoriana, Supercom, multou sete publicações por não veicularem notícias de interesse público.

"Fazer jornalismo em um regime autoritário é como jogar xadrez contra alguém que continua colocando as peças para fora do tabuleiro", disse ele. "É como jogar xadrez com alguém que não está jogando xadrez."

Pallares terminou com um último conselho: "Temos que retomar o significado das palavras", disse ele. "No Equador há apenas um mestre das palavras, Rafael Correa, então criamos a Mashi Machine".

A Mashi Machine permite que as pessoas escrevam mensagens em uma caixa de texto, que depois são reproduzidas com a voz do presidente equatoriano, Rafael Correa. A voz de Correa é capturada usando um mash-up de discursos públicos que ele deu ao longo de sua presidência.

Para ver o vídeo deste painel e todos os outros na ISOJ, visite o Facebook ou o YouTube. O vídeo não-editado está disponível em isoj.org.








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