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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Jornalistas venezuelanos que cobrem manifestações diárias devem se proteger de policiais, 'colectivos' e manifestantes




Por Lillian Michel

O dia 26 de maio marcou 56 dias de protestos contínuos contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante os quais jornalistas enfrentam agressões de policiais, coletivos armados e manifestantes.

Há mais de 115 casos de violações, restrições e ataques à liberdade de expressão registrados ao longo de pouco mais de um mês, de acordo com o observatório da liberdade de imprensa IPYS Venezuela. Mais da metade dos casos documentados pela organização entre os dias 28 de março e 8 de maio foram ataques físicos e ataques contra trabalhadores da mídia. Mais casos foram registrados durante esse período do que nos três primeiros meses do ano, quando 84 casos foram contabilizados.

Ilustração de Lillian Michel

Estes casos de violações podem incluir ataques físicos, restrições ao acesso a informações, censura, leis restritivas e uso abusivo do poder do Estado.

Embora o relatório do IPYS tenha sido concluído no dia 8 de maio, os ataques e a intimidação a jornalistas que cobrem a crise venezuelana continuaram.

"Se for um protesto pró-governo, as forças de segurança do Estado não nos incomodam, mas fico  alerta em relação aos manifestantes", disse Julett Pineda, jornalista do site venezuelano Efecto Cocuyo, em um e-mail para o Centro Knight.

Pineda explicou que as autoridades políticas e os meios de comunicação simpatizantes do governo disseram que o veículo onde ela trabalha, Efecto Cocuyo, divulga notícias falsas ou contribui para a "guerra dos meios de comunicação". Por isso ela é cautelosa quando vai a uma manifestação pró-governo.

"Se alguém reconhece a imprensa e ouviu esses tipos de declarações, é muito fácil ser chamada de ‘infiltrada’ ou ser intimidada por essas mesmas pessoas enquanto você faz o seu trabalho", ela explicou.

"Nas manifestações da oposição, estou mais preocupada com a polícia ou a com Guarda Nacional. No começo eu pensei que, se eu ficasse com um grupo de colegas e longe dos manifestantes, eles não iriam atacar a imprensa, mas não é assim".

No entanto, Pineda disse que a probabilidade de ser atacada é menor se ela ficar com colegas. "Mesmo assim, os oficiais uniformizados lançaram gás lacrimogêneo diretamente na imprensa para nos dispersar. Se você está separado do grupo, você corre um risco maior", acrescentou Pineda.

Pineda disse que também deve-se tomar cuidado com os manifestantes em protestos da oposição, inclusive ao fazer entrevistas ou tirar fotos. "Há muitos que são céticos, a respeito sobre qual veículo você representa, se você é ou não de um site Chavista, e pedem primeiro para ver a sua credencial."

No Twitter, o Sindicato dos Trabalhadores da Imprensa da Venezuela (SNTP) registrou pelo menos 16 ataques contra jornalistas durante as manifestações de 22 de maio. A maioria dos ataques ocorreu em Caracas, durante uma "marcha pela saúde e pela vida", interrompida pela Polícia Nacional Bolivariana.

Entre os feridos, estão a fotógrafa Ariana Cubillos e Juan Peraza, fotógrafo da Alcaldia de Chacao, que foram levados pelos membros da Guarda Nacional em Caracas. Jhoalys Siverio, do Correo del Caroni, e Pableysa Ostos, do El Universal, dois jornalistas da cidade de Guayana, tiveram seus celulares levados por manifestantes encapuzados.

Dois dias depois, o SNTP registrou pelo menos dois repórteres sendo atingidos por bombas de gás lacrimogêneo enquanto cobria a repressão do governo durante as manifestações. Two days later, SNTP recorded at least two reporters being hit by tear gas bombs while covering government repression during demonstrations.

Pineda disse que os jornalistas podem ser identificados pelo equipamento de proteção. Enquanto os manifestantes da oposição geralmente usam branco e carregam bandeiras venezuelanas, os jornalistas usam capacetes, máscaras de gás, e certificam-se de que sua credencial de imprensa esteja sempre visível.

O Ministério Público anunciou recentemente no Twitter que investigaria "agressões contra três jornalistas" do El Nuevo País e da Zeta que ocorreram em Caracas durante um protesto estudantil. Raylí Luján foi chutada e agarrada por "colectivos", sofrendo um arranhão no lado esquerdo do rosto, de acordo com SNTP. O grupo também tentou roubar dois membros da equipe de reportagem que estavam com Luján antes de soltá-los.

"Hoje fomos vítimas dos coletivos que ‘ninguém’ controla", escreveu Luján em sua conta pessoal no Twitter. "No entanto, não há um ataque que possa nos silenciar!"

Os 'colectivos' são grupos de civis armados e pró-governo do oeste de Caracas, já considerado território chavista. "Eles são muito mais violentos do que a polícia quando se trata de atacar a imprensa", disse Pineda.

"Os coletivos também fizeram da imprensa seu principal alvo. No Efecto Cocuyo tentamos não usar coletes à prova de balas para que esses grupos não possam nos identificar como imprensa tão rapidamente."

Em 18 de maio, o Ministério Público ordenou medidas de proteção para os membros da imprensa durante protestos depois que o SNTP apresentou uma denúncia citando provas de ataques contra jornalistas. Mas, de acordo com Pineda, naquele mesmo dia os jornalistas enfrentaram algumas das piores ações de repressão dos últimos 50 dias. O pedido foi aprovado pelo Tribunal de Justiça em 23 de maio, exigindo que os oficiais de segurança fornecessem proteção prioritária aos jornalistas.

"[Proteção significaria] ser capaz de fazer meu trabalho em paz", disse Pineda. "Não sendo incomodada ou ameaçada por qualquer grupo pelo trabalho que faço."

Em 26 de maio, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) divulgou um comunicado de preocupação, em parte sobre o "uso de operações militares para controlar manifestações públicas na Venezuela".

A declaração cita a Procuradoria-Geral da Venezuela e o Ministério Público, ao afirmar que 55 pessoas morreram em atos de violência entre os dias 6 e 24 de maio. Deste número, 52 eram civis e 3 eram policiais. De acordo com as organizações da sociedade civil e os porta-vozes do governo, 60 pessoas morreram devido à violência no contexto de manifestações, informou a CIDH.








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