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Iniciativas brasileiras buscam aumentar diversidade racial e de gênero das fontes jornalísticas



Uma série de iniciativas surgidas no Brasil nos últimos anos têm buscado aumentar a presença de mulheres e pessoas negras como fontes jornalísticas. A intenção é trazer mais diversidade para o debate público e transformar a representação desses grupos sociais nos meios de comunicação, que majoritariamente escolhem homens brancos para figurar como especialistas e vozes de autoridade nas histórias que veiculam.

Entreviste uma mulher (Image: Leah Goren)

A quase onipresença de homens como fontes no jornalismo é um fenômeno global, segundo apontou o Projeto de Monitoramento Global de Meios (GMMP, na sigla em inglês) em sua edição mais recente. O relatório de 2015 do GMMP indicou que, nos 114 países monitorados, as mulheres somavam apenas 19% do total de especialistas consultados em matérias jornalísticas. No Caribe e na América Latina, este índice é um pouco mais alto: 29% e 27%, respectivamente. Isso significa que há cerca de uma mulher para cada três homens que aparecem como especialistas no noticiário televisivo, impresso, radiofônico e online na região.

Para mudar esse quadro no Brasil, desde 2014 iniciativas como o Entreviste uma mulher, Entreviste um negro, Mulheres também sabem e Intelectuais negras têm criado bancos de dados com nomes, biografias e contatos de especialistas em vários temas e que podem ser consultados por jornalistas em busca de fontes que não sejam homens brancos.

O Entreviste uma mulher foi um dos primeiros a apontar o problema da falta de mulheres como fontes jornalísticas no Brasil. Para a organização feminista Think Olga, criadora do projeto, a ausência do ponto de vista das mulheres “traz muitos problemas para a sociedade e para a democracia” e “empobrece ou enviesa” o debate público, inclusive aqueles de interesse especial às mulheres brasileiras, como o direito ao aborto.

A iniciativa mantém uma planilha que tem atualmente cerca de 170 nomes de mulheres que estão abertas a receber solicitações de jornalistas. Entre as muitas áreas de conhecimentos delas estão direito internacional, museologia, finanças e artes marciais.

Inspirada pelo Entreviste uma mulher, a jornalista Helaine Martins criou o Entreviste um negro no fim de 2015. Martins disse ao Centro Knight que o projeto surgiu de seu incômodo como repórter e mulher negra ao ver homens brancos como especialistas em reportagens sobre questões que afetam particularmente a população negra brasileira, como as cotas raciais nas universidades.

“Normalmente quando uma pessoa negra é chamada pra dar entrevista, ela geralmente fala sobre ser negra”, disse a jornalista. “É um dos principais motivos para que o Entreviste um negro exista: para que a presença do negro seja normalizada. Somos aptos a falar sobre qualquer coisa, não só sobre questões raciais”, afirmou.

Na planilha cuidada pela jornalista, há atualmente 47 especialistas em temas como biotecnologia, energias renováveis, políticas públicas e afroempreendedorismo, entre outros.

Martins disse também que tem se dedicado a buscar pessoas para cadastrar na planilha, já que, segundo ela, pessoas negras tendem a não se ver como possíveis fontes jornalísticas, em um reflexo da quase onipresença de pessoas brancas nessa posição.

“Comecei a entrar em contato com coletivos, instituições, universidades, explicando o que era o projeto e dizendo que todo mundo poderia se cadastrar, não precisa ser necessariamente um doutor ou um mestre”, contou. “Pode ser uma trancista [especialista em tranças] que é muito boa no que faz, por exemplo. Nós, jornalistas, precisamos entrevistar todo tipo de gente.”

“Essa questão de se ver como especialista, como um intelectual, é algo muito recente entre nós negros, porque o número de pessoas negras nas universidades ainda é muito pequeno, muito inferior ao número de universitários brancos, e ainda menor quando se fala em pós-graduação”, afirmou Martins.

O Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) promove uma interpretação mais ampla do conceito de intelectual no catálogo Intelectuais Negras Visíveis. A publicação foi lançada durante a última edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho, e traz o perfil profissional e o contato de 181 mulheres negras brasileiras atuantes em 12 áreas, como direitos humanos, literatura e saúde, entre outras.

A ideia é “dilatar o conceito de intelectual negra para além da modalidade acadêmica”, disse Giovana Xavier, criadora do grupo de estudos e coordenadora do catálogo, ao Centro Knight.

Xavier, que também é historiadora e professora da UFRJ, explicou que a iniciativa foi pensada para visibilizar o trabalho de mulheres negras e impulsionar sua atuação profissional, mas que essa visibilidade também passa pela maior presença delas na comunicação e no jornalismo, como fontes e como produtoras de conteúdo.

“Para usar o nome do catálogo: como tornar visíveis histórias escritas e narradas por grupos que são invisibilizados, como é o caso das mulheres negras? A expectativa é fazer isso em todos os campos”, disse Xavier, destacando que a visibilidade passa também pela contratação de comunicadoras negras pelos veículos de mídia brasileiros.

Para Helaine Martins, “é muito difícil que o produto final, a notícia, seja diverso, se na própria redação não há diversidade”. Ela citou pesquisa sobre o perfil do jornalista brasileiro realizada pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em 2012 que indicou que jornalistas negros são 23% do total de profissionais atuantes na área no Brasil, enquanto 72% são brancos.

Search results for Political Science and International Relations contacts in the Mulheres Também Sabem database. (Screenshot)

“A notícia é reflexo do que há nas redações. Se há mais mulheres, mais gente da periferia, vai ser natural que isso se reflita na notícia. O jornalismo tem que mudar tanto por dentro quanto por fora”, disse Martins.

Já o projeto Mulheres Também Sabem se concentra em especialistas nos campos das Ciências Sociais e Humanas. Lançado há dois meses, sua base de dados já conta com 350 cientistas políticas, antropólogas, arqueólogas, economistas e pesquisadoras de áreas correlatas.

As criadoras do projeto disseram ao Centro Knight que se inspiraram no “Women Also Know Stuff”, criado por um grupo de acadêmicas dos Estados Unidos, e que o objetivo inicial era sanar a subrepresentação de mulheres especialistas em palestras, eventos, ementas de disciplina e similares.

“A busca por mulheres especialistas não pode ser mais difícil que a busca por homens especialistas, seja qual for o objetivo do contato, e é essa a função que vemos o site ser capaz de cumprir”, disseram as criadoras do Mulheres Também Sabem.



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