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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Pesquisadores lançam atlas para mapear o jornalismo local e os "desertos de notícias" no Brasil



Concentrada no eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Brasília, a grande imprensa brasileira acaba informando toda a população do país sobre o que acontece nestes lugares. Mas como as pessoas que vivem em cidades pequenas e médias do Brasil se informam sobre o que acontece na sua região?

O projeto Atlas da Notícia, do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) em parceria com a agência de jornalismo de dados Volt Data Lab, pretende responder a essa pergunta e identificar “desertos de notícias”, áreas não servidas por meios de comunicação locais e regionais.

Atlas da Notícia vai mapear o jornalismo local e os “desertos de notícias” no Brasil (Divulgação)

O Atlas foi lançado no dia 30 de agosto e vai mapear os veículos jornalísticos, especialmente aqueles voltados para a cobertura regional e local, que se dedicam à produção de notícias de interesse público em todas as regiões do Brasil.

A inspiração para a iniciativa brasileira é o America’s Growing News Deserts, projeto da revista Columbia Journalism Review, que mapeou os “desertos de notícias” nos Estados Unidos. Mas identificar as áreas do Brasil onde a cobertura jornalística local é escassa é apenas um dos objetivos do Atlas da Notícia, disse Angela Pimenta, presidente do Projor, ao Centro Knight.

Os 207 milhões de habitantes do país estão distribuídos por 5.570 municípios, dos quais apenas 300 concentram mais de 100 mil pessoas, lembrou ela. O Projor partiu deste dado para criar o Atlas da Notícia, com a intenção de conhecer “a natureza, a distribuição, as virtudes e os desafios” dos veículos regionais e locais para “ajudar a desenvolver o jornalismo fora da chamada grande imprensa”, disse Pimenta.

Nesta primeira fase, o Atlas pede a colaboração de jornalistas e consumidores de notícias, assim como de universidades, empresas, associações e sindicatos da área, para indicar no site o maior número possível de veículos jornalísticos espalhados pelo país.

A plataforma ficará aberta às indicações do público durante o mês de setembro. O Volt Data Lab também está realizando um levantamento junto a associações, sindicatos e federações de jornalistas, e estes dados serão cruzados com aqueles enviados pelo público no site do projeto. Já em meados de outubro deve ser lançado o primeiro balanço do Atlas, com a apresentação de um mapa dos “vazios de notícias” no Brasil, como o realizado nos EUA pela CJR.

Há muitos lugares pelo país “muito mal servidos” em termos de jornalismo local, disse Sérgio Spagnuolo, fundador e editor do Volt Data Lab, ao Centro Knight. “Queremos mapear para saber onde as pessoas não estão recebendo informações. Ou, se recebem informações, recebem dos jornais nacionais. Uma vez escutei de um jornalista do Pará que muita gente em Belém [capital do Estado] sabe mais sobre o que está acontecendo no Rio de Janeiro do que em sua própria cidade”, comentou.

A ideia é que os dados coletados sobre a imprensa regional e local no Brasil sejam disponibilizados no site do Atlas. As informações serão de acesso público e a expectativa de Pimenta e Spagnuolo é que elas sejam usadas por pesquisadores acadêmicos, organizações do terceiro setor e jornalistas interessados na análise da mídia no país.

“Cuidar do desenvolvimento sustentável e da democracia brasileira é olhar com um olhar novo e cuidadoso para o jornalismo local”, disse Pimenta, citando uma análise do papel da imprensa local na cobertura da tragédia de Mariana, em Minas Gerais, ocorrida em 5 novembro de 2015. O rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, controlada pela brasileira Vale S.A. e pela anglo-australiana BHP Billiton, deixou 19 mortos e provocou um desastre socioambiental sem precedentes na história do Brasil.

“Será que se a imprensa de Mariana fosse menos amigável à Samarco, a empresa poderia ter feito o que fez naquela represa?”, questiona Pimenta. “Quando a gente olha para a riqueza e para a vulnerabilidade do nosso meio ambiente e para as carências, as necessidades e mesmo para a vida cívica e institucional dessas populações, cabe a nós, como Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, também olhar para o jornalismo local”, explicou a presidente do Projor.

Pimenta ressaltou que a intenção não é “perseguir a imprensa local” e lembrou que conflitos de interesse não são exclusivos dela. “Estamos atrás de casos de sucesso e também de trabalhar junto, ver que tipos de desafios a imprensa local, num momento de crise econômica e de distribuição, está enfrentando”, disse.

Spagnuolo também comentou a importância da pesquisa para a análise do jornalismo feito hoje no país: “O jornalismo no Brasil é muito sujeito à opinião da crítica especializada, que não é tão fundamentada em dados. Existem bons críticos do jornalismo no país, mas acho que faltam dados quantitativos para medir não só a qualidade e o alcance, mas outros aspectos do jornalismo, como modelos de negócios e a saúde financeira das empresas”.








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