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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Jornalistas latino-americanos desempenham papel fundamental na investigação transnacional dos Paradise Papers




Esta nota foi atualizada para incluir um comentário de Borja Echevarria, da Univision.

Assim como nos Panama Papers, os jornalistas latino-americanos desempenharam papéis fundamentais na gestão, apuração e edição da investigação global conhecida como Panama Papers, projeto jornalístico liderado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), que analisa 13,4 milhões de documentos revelando atividades offshore de indivíduos e empresas de todo o mundo.​

Os latino-americanos serviram tanto em funções fundamentais no ICIJ assim como repórteres para os parceiros de mídia participantes. Da rede de mais de 380 jornalistas de 67 países de todo o mundo que trabalharam com o ICIJ na investigação dos Paradise Papers, 60 jornalistas e 13 países são da América Latina. ​ 

Ao todo, vinte e um meios de comunicação da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Paraguai, Peru, Porto Rico e Venezuela participaram das investigações.​

Logo dos Paradise Papers do ICIJ

 

A jornalista argentina e vice-diretora do ICIJ, Marina Walker, atuou novamente como gerente de projeto. Emilia Díaz-Struck atuou como editora de pesquisa e coordenadora regional para a América Latina.​​

Como Días-Struck conta, quando os ICIJ foram mais uma vez informados sobre um vazamento massivo de milhões de documentos que iriam expor o sistema financeiro offshore, eles ficaram interessados, mas cautelosos.​

No dia 3 de abril de 2016, eles começaram a revelar os frutos de uma investigação de um ano sobre os Panama Papers, 11,5 milhões de documentos vazados do escritório de advocacia panamenho Mossack Fonseca. O trabalho foi seguido por uma investigação menor, em 1,3 milhões de arquivos apelidados de Bahamas Leaks. E agora, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung dizia ter acesso a outro vazamento massivo de 13,4 milhões de documentos.​

"A questão para nós foi: "Isso é diferente do que acabamos de fazer?", disse ao Centro Knight Emilia Díaz-Struck. "Então, passamos algum tempo investigando porque precisaríamos ir aos parceiros e dizer 'OK, você vai se juntar a nós novamente para explorar milhões de documentos e offshores?' Então, a questão é 'o que é diferente? Isso é novo? Que tipo de histórias poderiam surgir?"​

Depois de examinar os documentos, a equipe encontrou essas novas revelações.​

Nomes de empresas multinacionais - como Nike, Apple e Uber - estavam nesses arquivos. Os Estados Unidos, que estiveram ausentes dos vazamentos do Panama Papers, também foram mencionados. E os jornalistas começaram a examinar as jurisdições - incluindo as Ilhas Cayman e as Bermudas - que não estavam envolvidas no vazamento anterior.​

Ainda que existam conexões com o trabalho anterior do ICIJ, essas diferentes tendências revelaram novas histórias.​

"Você diz: 'Uau, é muita coisa', mas então você precisa decidir, 'vamos entrar, fazer o esforço e explorar isso?' E quando dizemos 'sim, eles são uma fonte de interesse público e é diferente do que fizemos anteriormente', definitivamente vale a pena", explicou Díaz-Struck.​

Os Paradise Papers "mostram quão profundamente o sistema financeiro offshore está envolvido com os mundos interligados de atores políticos, riqueza privada e gigantes corporativos... e outras empresas globais que evitam impostos através de medidas de contabilidade cada vez mais imaginativas", de acordo com ICIJ.​ Como o ICIJ observa, o uso de empresas e fundos offshore e o fato de indivíduos ou entidades aparecerem nos Paradise Papers não implicam necessariamente que leis foram desrespeitadas ou que alguém atuou de forma imprópria.

Gráfico de Lillian Michel/Knight Center

Alguns dos jornalistas latino-americanos envolvidos desta vez são jornalistas que trabalharam nos Panama Papers e tradicionalmente já fazem parte da rede ICIJ e outros são novos. Por exemplo, esta foi a primeira colaboração de ponta a ponta com o ICIJ do jornal nacional colombiano El Espectador, do jornal costarriquenho La Voz de Guanacaste e do jornal argentino Perfil, explicou Díaz-Struck.​

Quando envolve parceiros de mídia na investigação, o ICIJ examina quais países têm a maior representatividade nos dados e seriam necessários para dar sentido às situações complexas. Por esse motivo, oito jornalistas do México participaram e isso significa que mais histórias vêm do país nos próximos dias.

Os jornalistas mexicanos, dos veículos Proceso, Quinto Elemento Lab, Mexicanos Contra la Corrupción e Univision, também colaboraram nas investigações e publicações, uma prática usada por outros meios de comunicação na região. Eles tiveram reuniões para discutir materiais nos arquivos vazados e dividir o trabalho de acordo com a experiência dos repórteres.

"Eles estavam muito bem organizados em termos de como iriam colaborar entre eles para apurar as histórias", explicou Díaz-Struck.

As publicações também estão publicando matérias de forma cruzada, como no caso de El Espectador e Connectas na Colômbia. Os sete jornalistas argentinos que trabalharam nos Paradise Papers estão distribuindo suas histórias na plataforma "Argentina Papers", criada para reportagens específicas do país.

Univision criou uma página em seu site mostrando a cobertura dos Paradise Papers na América Latina. (Screenshot)

Univision criou uma página em seu site mostrando a cobertura dos Paradise Papers na América Latina. (Screenshot)

A Univision também está compartilhando o trabalho de seus repórteres com outros meios de comunicação latino-americanos e compilou a cobertura dos Paradise Papers em toda a mídia latino-americana em uma página pesquisável por país. Além disso, Díaz-Struck disse que a rede americana em língua espanhola está ajudando a traduzir reportagens "para que todos os jornalistas latino-americanos possam ter acesso a elas em espanhol". 

"Nosso objetivo era que os latino-americanos que vivem nos Estados Unidos e leem Univision pudessem terminar consultando a informação nos meios dos países de origem em que ela havia sido trabalhada. Ao mesmo tempo, lhes cedemos todas as traduções, vídeos, etc, que fizemos dos temas de ICIJ para que pudessem publicá-los em seus respectivos meios", disse Borja Echevarria, vice-presidente e editor-chefe da Univision Digital, ao Centro Knight. "Acredito que a colaboração e a generosidade são chave nestes projetos e uma amostra do lugar para onde o jornalismo de investigação está indo."

Jornalistas latino-americanos também se comunicaram através de um grupo do Whatsapp "que tem sido muito útil para intensificar a comunicação entre colegas de diferentes países. Tem sido muito valioso porque todos são atensiosos e se apoiam", explicou.

Além da comunicação, a natureza do vazamento apresentou novos desafios para o ICIJ e seus parceiros.

Ao contrário dos Panama Papers, que vieram apenas do escritório de advocacia Mossack Fonseca, os vazamentos dos Paradise Papers vieram da empresa de advocacia offshore Appleby, Asiaciti Trust e de registros de empresas em 19 jurisdições sigilosas. Além disso, os documentos estavam em formatos diferentes, alguns dos quais inicialmente não permitiam leitura ou pesquisa.

"É realmente uma tarefa titânica para dar sentido a isso", observou Díaz-Struck.

Para entender esses documentos e colocá-los à disposição das centenas de jornalistas que trabalham nas investigações, o ICIJ usou ferramentas familiares adaptadas às necessidades desse projeto.

Eles usaram três plataformas diferentes: um Knowledge Center para fazer o upload e busca dos documentos, outro (Linkurious) para conectar os pontos entre entidades e funcionários e o último (Global I-Hub) para comunicação entre jornalistas.

As plataformas foram atualizadas para que os usuários pudessem distinguir entre fontes de informação e pudessem fazer links para histórias anteriores em que o consórcio havia trabalhado.

Jornalistas da Ibero-América também estiveram na equipe de dados responsável por ajudar a organizar toda essa informação. A jornalista espanhola Mar Cabra atuou como editora de dados, e o costarriquenho Rigoberto Carvajal, o espanhol Miguel Fiandor Gutiérrez e o mexicano Manuel Villa também fizeram parte da equipe de dados e pesquisa. Villa é o primeiro Fellow Neo4j de dados conectados do ICIJ, que foi adicionado à equipe após a investigação do Panama Papers para ajudar a entender e encontrar histórias em dados importantes.

Para garantir que todos os dados e comunicações permaneçam seguros, o ICIJ conta com um especialista em segurança e criptografa para todas as plataformas e comunicações. E para garantir o sigilo de todas as investigações até a publicação, todos os parceiros de mídia e jornalistas devem concordar com a primeira das duas promessas-chave: manter o projeto apenas entre as pessoas que estão fazendo o trabalho. O segundo elemento chave é o que Díaz-Struck se refere como "compartilhamento radical", ou seja, permitir que outros saibam sobre o que você encontrou.

 Como vários veículos, o site Ojo Público criou um microsite para toda a cobertura dos Paradise Papers. (Screenshot)

 Como vários veículos, o site Ojo Público criou um microsite para toda a cobertura dos Paradise Papers. (Screenshot)

"Somos uma equipe que atravessa fronteiras", disse a editora de pesquisa.​

À medida que as colaborações transnacionais crescem, de acordo com Díaz-Struck, a maturidade em termos de compartilhamento de informações para expor conexões maiores e mais globais também aumenta.

"Eu acho que os Panama Papers são um ponto chave para a colaboração e as pessoas viram o impacto que esse trabalho teve, a importância das histórias e como elas realmente fazem a diferença, mesmo para todos os parceiros de mídia", explicou Díaz-Struck, que também co-fundou o site nativo digital venezuelano Armando.info. "Eles gastaram muito, investiram muito tempo, mas a importância de suas histórias, a qualidade de suas histórias era tão alta e o impacto era relevante que eu acho que isso se refletiu no ambiente de mídia. Você vê mais colaborações nos dias de hoje".

Todas as publicações abaixo são parceiros de mídia do ICIJ na investigação dos Paradise Papers. A investigação transnacional tem sido proeminente no site da maioria dos veículos. Clique no nome da publicação para ver sua cobertura.​

Argentina: America TV-A24; La Nación; Perfil; SoloLocal.Info

Brasil: Poder360

Chile: CIPER

Colômbia: Connectas; El Espectador

Costa Rica: DataBaseAR (Grupo AR); Loz Voz de Guanacaste

Equador: El Universo

El Salvador: El Faro

Guatemala: Plaza Pública

México: Mexicanos Contra la Corrupción; Proceso; Quinto Elemento Lab

Paraguai: ABC Color

Peru: Convoca; Ojo Público

Porto Rico: Centro de Periodismo Investigativo

Venezuela: Armando.info

Nota da editora: Rosental Alves, diretor do Centro Knight, faz parte do conselho consultivo do ICIJ

 








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