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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Pesquisa: Páginas hiperlocais no Facebook cobrem áreas do Rio de Janeiro ignoradas pela mídia tradicional




 

Por Pablo Nunes, pesquisador do CESeC (*)

Pablo Nunes

Apesar da promessa de que internet seria um caminho para criar uma aldeia global ter, em certa medida, se realizado, os meios digitais também permitiram a produção de informação hiperlocalizada e hiperespecializada. No Brasil, onde 66% da população está conectada à internet, as redes sociais vêm permitindo a criação de mídias hiperlocais – páginas e grupos que tem como foco um bairro, uma localidade ou mesmo uma rua.

Atualmente, as páginas de bairros do Rio de Janeiro cumprem um papel importante no que se refere ao consumo de informação sobre eventos, serviços públicos, violência e crime no cotidiano dos moradores da cidade. Essas páginas cada vez mais ganham espaço e importância, uma vez que o jornalismo tradicional não conseguiu superar seu distanciamento das favelas e dos bairros periféricos.

Vemos nos resultados preliminares da pesquisa “Mídia e Violência: o que mudou em dez anos”, em finalização, que a produção de notícias sobre segurança pública continua a ter como foco prioritário os territórios considerados de maior interesse pelos veículos de imprensa – como os bairros mais afluentes, onde residem os assinantes de jornais e revistas. A mesma pesquisa também identificou a ausência de notícias sobre os territórios com maiores taxas de homicídios, como, por exemplo, a Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense.

Para entender melhor esse fenômeno, realizamos a análise de 156 páginas do Facebook, extraindo 900 posts de cada uma, num total de 64.529 posts, abrangendo o período de setembro de 2010 a julho de 2017. As páginas estudadas são muito heterogêneas entre si. Por exemplo, em relação ao número de “likes”, a “Rio de Nojeira” ocupa o primeiro lugar no ranking, com 796 mil curtidas, seguida de “Bangu ao Vivo”, com 652 mil. No extremo oposto temos a página “Favela News Rio de Janeiro” com 259 fãs. Para fins de comparação, a página do jornal Extra no Facebook tem 2.180.081 fãs e a do Globo, 5.476.898 – números bem superiores aos do universo focalizado pela nossa pesquisa. Já a do jornal O Dia tem 595.806, menos que os quase 800 mil que seguem a “Rio de Nojeira”.

A maior parte dos textos, fotos e vídeos publicados focaliza, além da violência, outras questões locais cotidianas, recuperando ao menos parte do papel dos pequenos jornais que circulavam nos bairros e favelas da cidade e hoje praticamente desapareceram, seja por falta de recursos, seja pela popularização da internet. Observou-se, por outro lado, que, entre as postagens mais curtidas ou compartilhadas, várias tratavam de assuntos ou histórias sem relação necessária com o contexto local.

Dos posts que se ocupam de segurança e violência (44% dos textos), foi possível circunscrever três grupos temáticos: um, relacionado à dinâmica do tráfico de drogas e das facções criminosas (12% dos textos), especialmente nas favelas; outro, relativo às ações policiais (20 % dos textos); e um terceiro, voltado à autoproteção dos cidadãos por meio de relatos de crimes e da identificação de supostos criminosos (12% dos textos).

Os posts relativos a acontecimentos do “mundo do crime” versaram sobre confrontos, disputas territoriais, mortes de integrantes dos grupos do tráfico. Em suma, expressam claramente dinâmicas típicas da criminalidade no Rio de Janeiro: o controle territorial armado por grupos criminosos e a disputa permanente entre facções do tráfico de drogas.

Nas postagens relativas às ações policiais, foram veiculadas informações sobre operações e ações policiais, como blitzes, prisões, apreensões e/ou incursões em favelas. São posts que frequentemente utilizam siglas e palavras do jargão policial – como “guarnição”, “flagrante”, “BOPM” (Boletim de Ocorrência da Polícia Militar), “VTR” (viatura) etc. Outras publicações trazem textos copiados de sites de jornais, sem menção à fonte. A ausência do cuidado no crédito para a informação, aliás caracteriza em grande parte a circulação desse tipo conteúdo, que se reproduz de forma viral, tanto no Facebook quando em grupos de WhatsApp e em outros aplicativos, sem preocupação com a origem do informe.

Por fim, no terceiro grupo de postagens, os autores revelam o intuito de produzir uma rede de ajuda e proteção mútua, unindo indivíduos com medo do crime e baixa confiança no trabalho policial e na eficácia do Estado em fazer cumprir a lei. A circulação de informações nesse tipo de rede, se, por um lado contribui para reduzir o risco de moradores de territórios conflagrados, carrega, por outro, o risco do vigilantismo e do justiçamento.

Outro efeito potencialmente danoso desse tipo de postagem é o da reprodução de estereótipos e preconceitos. Quando se analisa, por exemplo, o perfil dos que aparecem em fotos de “suspeitos” ou alegados criminosos, com frequência vemos homens jovens e negros, vítimas maiores da violência social e institucional no Brasil. Ao contrário de certas expectativas muito otimistas, a Internet não é necessariamente um espaço de quebra de barreiras e preconceitos históricos.

Realizamos também a análise de grafos, que são recursos para mensurar a interação entre as páginas, construindo visualmente “mapas de afinidades” a partir das curtidas de cada página em outras, dentro ou fora desse universo. Pela análise da conexão entre páginas dentro e fora do universo analisado, foi possível perceber que as ditas “hiperlocais” não configuram “bolhas” fechadas, mas se articulam em redes bem mais extensas, nem sempre definidas pelo enfoque territorial.

Rede ampliada de likes das páginas
 

O estudo desse fenômeno tipicamente carioca nos ajudou a perceber não só a potência e relevância desses comunicadores para a população da cidade, mas também revelou que existe uma carência de informações que a mídia tradicional não sabe ou não se interessa em suprir. Mas é importante pontuar que tais canais de informação, em sua maioria, carecem de uma característica fundamental do Jornalismo: a checagem dos fatos. Na verdade, a imprensa vem se valendo dessas páginas como novas fontes de informação, checando as notícias sobre ocorrências e incorporando aos seus sites vídeos e fotos postados na mídia social.

Uma das conclusões desse estudo é que há um grupo de páginas que produzem conteúdos como forma de contrapor o discurso do senso comum, que estigmatiza as favelas e bairros pobres, legitimando a ação arbitrária da polícia. Com um smartphone em mãos, ativistas conseguem documentar condutas violentas e criminosas de policiais, execuções ou extorsões. Essas informações muitas vezes não são registradas pelos grandes jornais, inclusive por causa de protocolos de segurança impostos aos jornalistas.  Num momento de restrição de atuação dos jornalistas em territórios de favela, ter outros comunicadores de dentro desses territórios produzindo informes sobre seu contexto de violência é fundamental para que o assunto seja pautado na opinião pública.

Mas também há o lado negativo dessa produção, que acaba reiterando estereótipos construídos sobre o “bandido” por meio da divulgação de fotografias de jovens, homens e em sua grande maioria negros, perfil da população que mais morre por homicídio no Brasil. De certa forma, a reprodução de estereótipos, as informações descontextualizadas, quando não falsas, e a velocidade com que essas “notícias” circulam pelas redes podem contribuir para o crescimento do sentimento de medo e para reações violentas entre os que consomem essas postagens.

O contexto da segurança pública no Brasil é dramático: 61.600 pessoas morreram vítimas de homicídio em 2016, sendo que 4.200 foram mortas por policiais. Na cidade do Rio de Janeiro, 1.900 foram mortas no ano passado e a polícia matou 460 pessoas. Por isso acreditamos que o monitoramento dessas páginas continua tendo relevância para nos indicar como a população tem se relacionado com a violência cotidiana e como está sua relação com os órgãos de segurança pública e com a imprensa.

 

* Pablo Nunes

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS-UERJ). Desde 2015 é doutorando em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). É pesquisador no Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC) onde desenvolve pesquisas relacionadas a política pública de segurança, violência e sociabilidade em favelas cariocas, mídia sociais, jornalismo e a relação com a violência, avaliação de projetos sociais, etc. 








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