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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

PESQUISA: Imprensa brasileira resiste ao uso de inteligência artificial e outras tecnologias no jornalismo




Por Lucas Vieira de Araujo, professor da Universidade Estadual de Londrina*

Lucas Vieira de Araujo (Cortesia)

A área de comunicação de massa foi uma das mais afetadas pela expansão da tecnologia. As mudanças tecnológicas, inclusive, puseram em xeque o modelo de negócio dos meios de comunicação tradicionais. Nesse bojo emergem tecnologias como os algoritmos, a inteligência artificial e a Natural Language Generation (NLG), cada vez mais dominantes nas empresas de mídia, que os utiliza para variadas aplicações, desde produção de notícias até distribuição de conteúdo.

Essa massificação, no entanto, tem provocado efeitos adversos. A busca por ganhos de escala e agilidade nos processos gerou críticas quanto a aspectos ideológicos, de ética jornalística e de transparência. Estudos mostraram que os sistemas computacionais utilizados por muitos meios de comunicação apresentam preconceitos e sentimentos hostis em decorrência do funcionamento baseado em padrões.

Não obstante a importância do assunto, no Brasil as discussões em torno dos algoritmos ainda são demasiadas precoces e isoladas. Essa foi uma das razões pelas quais busquei responder a seguinte pergunta: O que pensam as maiores empresas de comunicação do Brasil, de âmbito nacional e regional, sobre algoritmos, inteligência artificial e linguagem NLG e quais as perspectivas dessas tecnologias no país?

Para respondê-la, fiz uma pesquisa com os principais veículos de comunicação do Brasil em âmbito nacional e regional: i) Grupo Globo; ii) Grupo Folha; iii) Grupo Estado; iv) Grupo Abril; v) Sistema Brasileiro de Televisão (SBT); vi) Grupo Record; vii) Grupo RBS, viii) Grupo RIC, ix) Emissoras Pioneiras.

Algoritmos, Inteligência Artificial e NLG

Antes de tratar dos resultados de pesquisa, é necessário contextualizar a inteligência artificial, os algoritmos e a linguagem NLG, já que são tecnologias complexas. Algoritmos são procedimentos codificados para transformar dados de entrada em uma saída desejada, com base em cálculos especificados. A saída pode ainda operar como entrada adicional para posteriores processos de seleção algorítmica. Essa possibilidade é chamada de rede neural, classificada como uma tentativa de emular a estrutura de computação dos neurônios no cérebro humano.

Com o propósito de aprimorar o grau de previsibilidade, muitas redes neurais e algoritmos evolucionários estão interligados com inteligência artificial, fenômeno classificado como a capacidade das máquinas desenvolverem uma inteligência similar à humana. Além de pensar e agir como humanos, são exigidos outros requisitos da máquina dotada de inteligência artificial. Um deles é a capacidade de utilizar a Natural Language Generation (NLG)[1] para produzir textos noticiosos. Nas empresas de mídia esse processo ocorre por meio do jornalismo algorítmico, que emprega algoritmos, inteligência artificial e NLG para gerar notícias, como relatórios de crimes até alertas de terremoto, com baixa intervenção humana –geralmente basta um endereço de internet para a máquina fazer o texto.

Visão das empresas de comunicação brasileiras sobre algoritmos (Pergunta de Pesquisa)

Os gestores das empresas brasileiras de comunicação entrevistados, de forma geral, mostraram-se céticos e descrentes com os algorítmos. Reconhecem que é uma tecnologia promissora com um grande potencial de crescimento, porém, não vislumbram no curto prazo uma integração maior com a tecnologia. Para o CEO do Grupo Abril, Walter Longo:

Eu acho que o uso de algoritmos é espetacular não para descobrir o que as pessoas devem consumir, mas o que a pessoa deseja adquirir. Se eu souber nesse momento, através dos algoritmos, o que as pessoas gostariam de adquirir, isso é bom para eu vender mais o produto ou ter mais audiência.

Os entrevistados mostraram-se preocupados com o custo da tecnologia face aos benefícios que ela gera em termos de redução nos gastos. Notadamente no setor de TV aberta, as empresas brasileiras de comunicação vislumbram reduzidas possibilidades de adoção dos algoritmos. Para o diretor de programação do Grupo Record, Marcelo Caetano:

Inevitavelmente quem produz conteúdo vai se beneficiar dos algoritmos. Um exemplo é a série House of Card, do Netflix, que foi criada a partir de decisões tomadas por algoritmos a partir de banco de dados. Porém, estamos ‘tateando’ nesse campo no Brasil. Não temos muito claro como isso interfere no negócio de TV aberta.

Além do custo da tecnologia, os entrevistados destacaram questões legais e normativas como impedimentos. Ressalte-se ainda que a adoção de algoritmos representa uma mudança nas atribuições dos jornalistas e na própria estrutura dos cargos das redações.

Um fator preponderante que foi pouco destacado pelos entrevistados, mas que pesquisas internacionais já comprovaram, são as práticas culturais na criação de notícias. A cultura organizacional das principais empresas de comunicação brasileiras não internalizou mecanismos de integração entre humanos e máquinas para a produção de notícias. Apenas o editor executivo de conteúdos digitais do Grupo Estado, Luis Fernando Bovo, afirmou de forma categórica que seria positivo o jornalista se concentrar em atividades menos mecânicas, como a apuração dos fatos, enquanto a máquina coletaria dados e produziria textos menos elaborados: “eu não acho ruim você ter uma máquina produzindo notícias que são commodities”. O receio em relação a tecnologias como algoritmos, inteligência artificial e NLG pode estar também em outros fatores. Pesquisas já mostraram que ela deriva do receio dos seres humanos em perderem o controle da situação, conquanto percebam que a tecnologia costuma tomar decisões mais acertadas em certas circunstâncias. A hesitação dos gestores tem fundamento. Há possibilidade de erros, manipulações, interesses comerciais e políticos interferirem naquilo que a máquina realiza. Estudos já demonstraram que é imprescindível a colaboração humana para prevenir falhas, assim como ampliar o debate em torno de mecanismos de transparência algorítmica.

Uma das poucas opiniões unânimes entre as empresas foi a percepção de que tecnologias como algoritmos, inteligência artificial e NLG prejudicam a sociedade por meio da produção e disseminação de notícias falsas. Para o CEO do Grupo RBS, Eduardo Melzer, “algoritmo é adequado para informações simples e de feedback. Não é apropriado para a produção jornalística séria e profissional, que precisa ter discernimento, apuração, visão plural e responsabilidade social”. O conteúdo, no entanto, não tem se mostrado absolutamente imprescindível. Pesquisa mostrou que faltam redes independentes de distribuição às empresas de notícias. Dependentes de motores de busca e de redes sociais digitais para gerar audiência e aumentar as receitas com publicidade, as firmas de mídia não conseguem mostrar às pessoas o quanto são necessárias à sociedade. Sem isso, perdem credibilidade, o que completa o círculo vicioso de redução de audiência e de receita publicitária.

Os algoritmos, inteligência artificial e NLG têm se mostrado inovações úteis às empresas de mídia quando, principalmente, reforçam as redes de distribuição, reduzem custos e melhoram o engajamento com leitores/assinantes. Esses resultados positivos, no entanto, não têm ocorrido no Brasil, mas em empresas que estão investindo há anos em inovações. A pesquisa feita por mim mostrou que isso se deve, em parte, ao reduzido interesse das empresas de mídia em desenvolver, testar e aplicar inovações com algoritmos, inteligência artificial e NLG nos próximos anos.

O que esperar para o futuro?

O jornalismo algoritmo é uma tecnologia inexorável. Disso os gestores brasileiros entrevistados concordaram em uníssono. A chave está em como usar essa tecnologia a favor. Talvez seja desenvolvendo sistemas próprios nos quais o algoritmo, a inteligência artificial e a NLG não só ajudem a coletar e selecionar informações, mas também a elaborar textos. Nesse aspecto é importante uma mudança de mentalidade do gestor brasileiro de empresa de mídia.

Outra atitude relevante é produzir tecnologia a custos baixos. Para tanto, urge que as empresas de mídia se envolvam de forma mais efetiva com o desenvolvimento de inovação no país. É possível criar, desenvolver e aplicar inovação sem onerar demasiadamente a empresa desde que haja um intercâmbio maior com o ecossistema de inovação, principalmente as universidades, cujo conhecimento técnico e aplicado podem ser úteis para encontrar caminhos.

 


[1] A NLG é um subcampo da Natural Language Processing (NLP) cuja principal característica é a habilidade de aprender consigo mesma, a partir de processos iterativos de tentativa e erro. Esta faculdade, antigamente restrita aos humanos porque as máquinas não conseguiam adaptar-se às vicissitudes da fala e do texto, faz parte das máquinas dotadas da capacidade de aprendizado com grande quantidade de dados, como é o caso da Machine Learning e NLP.

 

*O Centro Knight publica ocasionalmente artigo de pesquisadores sobre jornalismo na América Latina e Caribe. Lucas Vieira de Araujo é doutor em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo e professor na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e na Faculdade Assis Gurgacz (FAG). E-mail: professorlucasaraujo@gmail.com. LinkedIn: Lucas Vieira de Araujo




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