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Jornalistas do Brasil e da Venezuela colaboram em reportagem inovadora sobre conflito mineiro na Amazônia



A intensa atividade de mineração que ocorre em uma vasta área da Amazônia venezuelana inspirou um grupo de jornalistas interessados em questões sociais e ambientais a trabalhar colaborativamente através das fronteiras.

Foi assim que o jornal venezuelano Correo del Caroní, o site brasileiro InfoAmazonia e o jornalista investigativo holandês Bram Ebus passaram meses trabalhando na inovadora reportagem "Explorando o Arco Mineiro", recentemente reconhecida pelo Online Journalism Awards.

Gustavo Faleiros, coordenador da InfoAmazonia, disse ao Centro Knight que após conhecer o editor do Correo del Caroní Óscar Murillo durante o Festival de Jornalismo Gabriel García Márquez, em 2016, eles falaram sobre a necessidade de cobrir a área conflituosa conhecida como Arco Mineiro. Faleiros convidou Ebus para participar do projeto, já que sabia de seu interesse em escrever sobre aquela área do sul da Venezuela.

Ebus e dois outros jornalistas do Correo del Caroní, Wilmer González e Leonardo Suárez, realizaram o trabalho de campo no Arco Mineiro por três meses. Eles entrevistaram mineiros e suas famílias, indígenas da região, políticos, ativistas e acadêmicos. Eles tiraram fotografias e fizeram vídeos, além de coletar muitas informações sobre as características do local e documentar o que acontece ali.

Quanto à sua experiência, Ebus disse ao Centro Knight que os contatos obtidos pelo Correo del Caroní e seus repórteres no Arco Mineiro abriram muitas portas, pois eles possuem uma grande rede no Estado venezuelano de Bolívar.

"É sempre fundamental ter contatos da região, que em grande parte dão legitimidade à visita do repórter e, portanto, à segurança", disse ele.

"Os desafios de reportar na Venezuela, e especialmente no sul do país, eram muitos. A falta de dinheiro em papel, problemas de acesso a combustível, postos de controle da Guarda Nacional e basicamente a completa militarização das áreas de mineração criaram várias desvantagens", disse Ebus.

Ebus foi detido por 24 horas em 21 de setembro por agentes da Guarda Nacional da Venezuela, enquanto fazia trabalho de campo no Arco Mineiro. Segundo o repórter, foi fundamental ter feito vários contatos com ONGs que atuam na área, ter apoio local e conhecer a embaixada de seu país na Venezuela.

Quando Ebus, González e Suárez voltaram de sua viagem, trouxeram um grande acervo de fotografias e vídeos, muitos dos quais se tornariam parte da reportagem investigativa multimídia, que está disponível em espanhol, inglês e português.

Murillo, do Correo del Caroní, e Faleiros, da InfoAmazonia, foram responsáveis ​​pela edição do texto. Por sua vez, Stefano Wrobleski, um dos editores da InfoAmazonia, foi encarregado de editar a plataforma criada por um dos membros da sua equipe de desenvolvedores, Miguel Peixe.

"Sabíamos que depois de três meses no campo, nossos repórteres retornariam com muitos textos, fotos e vídeos, e precisávamos pensar em um design versátil que se destacasse além do texto - especialmente os mapas, que geralmente exigem mais espaço para sua visualização”, disse Wrobleski ao Centro Knight.

De acordo com Wrobleski, eles queriam dar um novo espaço à reportagem levando em conta que o conteúdo multimídia no meio do texto tende a distrair o leitor e que páginas muito longas desestimulam a leitura.

"Do jeito que fizemos o design, o conteúdo multimídia está diretamente ligado ao texto, servindo como complemento, mas com igual importância", explicou.

Na reportagem de 10.000 palavras e dezenas de imagens e vídeos, a InfoAmazonia usou uma técnica chamada "scrollytelling". Ela permite que o leitor continue lendo o texto sem que o conteúdo multimídia o interrompa. Isso faz com que as diferentes camadas de conteúdo se movam dinamicamente enquanto o leitor navega pelo texto, disse o editor da InfoAmazonia.

O dinamismo da reportagem é tal que quando o público lê a primeira frase sobre um mineiro com mãos enlameadas atirando pedras em um moinho, também pode ver o homem, suas mãos, as pedras, a lama e a roda girando em um vídeo à direita do texto. À medida que o leitor lê e avança na página, novas fotos, mapas e vídeos aparecem à direita para complementar a história em desenvolvimento.

 O júri do Online Journalism Awards, que reconheceu “Explorando o Arco Mineiro” pela inovação no jornalismo investigativo, disse que “a apresentação digital também trabalhou para agregar valor ao texto sem ser uma distração”.

"Com base na experiência do Arco Mineiro, generalizamos a ideia de plataformas com templates que estamos adaptando a outras reportagens em que estamos trabalhando em aliança com outros meios", revelou Faleiros.

Faleiros comentou que eles estão muito felizes com os resultados da reportagem e destacou que é “essencial” trabalhar com aliados.

"Especialmente quando estamos falando sobre a questão da Amazônia, porque muitas vezes é muito difícil estabelecer as conexões que existem entre dois países ou mostrar questões tão complexas, como esta do Arco Mineiro, para um público no Brasil ou internacional", disse ele.

Foto via InfoAmazonía/Correo del Caroní

Esta reportagem colaborativa foi financiada pelo Pulitzer Center on Crisis Reporting.

Ao falar sobre o projeto e o reconhecimento que recebeu, Faleiros e Ebus são rápidos em expressar sua preocupação por um de seus colaboradores do Correo del Caroní, a quem eles dedicaram o prêmio do Online Journalism Awards.

González, fotojornalista do Correo del Caroní que participou da reportagem sobre o Arco Mineiro, desapareceu poucos meses após a conclusão do trabalho de campo para a reportagem, segundo o jornal venezuelano.

De acordo com Correo del Caroní, sua família não tem notícias dele desde março deste ano, quando ele se comunicou com eles a partir de uma área de mineração em Piacoa, no Estado de Delta Amacuro, ao norte do Estado de Bolívar.




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