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Rádio e televisão públicas do Peru lançam terceiro programa de notícias apresentado em língua indígena



Com pouco mais de 80 mil habitantes no Peru e parte do Brasil, os Asháninka são o grupo étnico mais numeroso da Amazônia peruana. O Instituto Nacional de Rádio e Televisão do Peru (IRTP) lançou recentemente o "Ashi Añane", um programa informativo na língua Asháninka, para dar à cultura uma plataforma nacional.

Cinthya Gonzales e Deniz Contreras, apresentadores de Ashi Añane. (Divulgação)

Em menos de dois anos, o IRTP lançou três programas informativos em idiomas nativos do país. Ñuqanchik (Nós), em Quechua, Jiwasanaka (Nós), em Aymara, e neste mês Ashi Añane, que em Asháninka significa "Nossa voz".

O último, que procura incluir e valorizar os cidadãos Asháninka, é transmitido semanalmente desde 3 de novembro, nas estatais TV Perú e Rádio Nacional. É apresentado por Cinthya Gonzales e Deniz Contreras, dois comunicadores da cultura Asháninka. Gonzales é também um intérprete oficial e tradutor da língua Asháninka, reconhecido pelo Ministério da Cultura.

"Os Asháninka foram um dos povos mais atingidos pelo terrorismo durante a era do Sendero Luminoso. Muitos deles foram escravizados, mulheres foram estupradas e o Estado, mais preocupado em atender às grandes cidades, os deixou sozinhos lutando contra o Sendero Luminoso", disse o diretor do IRTP, Hugo Coya, ao Centro Knight.

"Há histórias terríveis e dramáticas dessa luta sobre as quais pouco ou nada se sabe. De certo modo, esse espaço está pagando, em parte, a dívida que o Estado historicamente tem com esse povo", afirmou.

Segundo Patrícia Balbuena, ministra da Cultura, essa iniciativa do IRTP está relacionada a uma abertura do Ministério da Cultura que começou em 2013, quando foi criado o departamento de línguas indígenas. "Acho que é um ponto de ruptura no papel assumido pelo Ministério, entendendo que no Peru existem 48 idiomas e que estes exigem um olhar não apenas na dimensão da escola", disse Balbuena ao Centro Knight.

Para a ministra, até poucos anos atrás, o tema do idioma havia sido encapsulado na educação bilíngue intercultural e havia muito poucos espaços em que o idioma transcendia a escola. "Entendemos que era uma séria ameaça à vitalidade das línguas. Sua vitalidade depende do seu nível de presença nos espaços públicos", disse ela.

O programa cultural, que também fala sobre gastronomia, meio ambiente e costumes, tem algumas seções fixas, como “o personagem Ashaninka de sucesso”. Para esta seção, todas as semanas eles procuram entrevistar pessoas da comunidade que se destacaram profissionalmente ou em negócios. Na semana passada, foi sobre uma mulher Asháninka que monitora peixes amazônicos em Oxapampa, na selva peruana central. Há também a seção “oralitura”, na qual os contos ancestrais e as lendas orais da cultura Asháninka são destacados.

Os apresentadores propõem ativamente os temas a serem abordados e, para as reportagens, entram em contato com as organizações nas províncias e com líderes das comunidades dos diferentes grupos étnicos de sua cultura.

"Foi um boom para o meu povo. No meu distrito de Río Negro, em Satipo [na região de Junín], que tem sido chamado de distrito Intercultural, o prefeito, que está muito comprometido com o povo Asháninka, organizou com o município para projetar o programa em uma tela grande, para toda a cidade. E no rádio os irmãos que estão longe da cidade nos ouvem”, disse o apresentador Deniz Contreras ao Centro Knight sobre o dia da estréia do programa.

Contreras disse que um dos objetivos do programa é fazer com que os jovens Asháninka, que têm vergonha de falar sua língua, se sintam orgulhosos de sua cultura e ajudem na sua preservação.

"Sinto-me muito grato e feliz porque fomos essencialmente parte da negligência por parte do Estado peruano. Hoje temos essa oportunidade", disse Contreras.

O apresentador se aventurou no rádio pela primeira vez aos 15 anos quando começou a ajudar seu pai a realizar um programa cultural musical em uma estação de rádio municipal em sua província. Seu treinamento é empírico porque ele nunca teve recursos para estudar profissionalmente a carreira de comunicação.

A presença de homens e mulheres de comunidades indígenas no mundo da televisão e no rádio era absolutamente alheia ao Peru, disse Balbuena, a ministra da Cultura. Recrutar apresentadores não foi um processo fácil, de acordo com ela.

"Acho que também tem sido um processo muito difícil para eles, mas isso também nos coloca o desafio da profissionalização. Que a televisão nacional é quem está fazendo isso e desencadeando esse processo, acho que é muito importante, não só porque é o Estado, mas porque tem uma capacidade impressionante de cobertura em todo o país", explicou a ministra.

Balbuena destacou o papel de Hugo Coya na liderança do IRTP na criação do primeiro noticiário em Quéchua na história da televisão peruana no ano passado. Meses depois, estreou um programa de notícias em língua Aymara, também pela primeira vez no país.

"O programa de notícias em Quechua começou, o noticiário em Aymara e agora este programa em Asháninka. Em geral, acho que é simbólico. O povo Asháninka é o maior povo indígena da Amazônia, em termos de população, e é um dos mais historicamente afetado. A colonização entrou na Amazônia através da zona Asháninka, o terrorismo os destruiu, e como o processo de evangelização entrou na zona da selva central, eles foram os mais atingidos pela ocupação dos colonos. Apesar disso, é um povo que resiste , um povo grande, um povo que segue em frente", explicou Balbuena.

Esse é um pequeno grande esforço, "algo que poderia ter sido feito nos últimos anos e não foi feito", disse Coya.

Entre outras virtudes do programa em Asháninka, Coya explicou que este espaço é também uma oportunidade para ajudar a informar comunidades peruanas que não falam espanhol para aprender em sua própria língua sobre previsão do tempo, campanhas de saúde contra a anemia e prevenção de doenças realizadas pelo Estado.

"Então, para eles, com o idioma sendo falado, além do reconhecimento e da questão de identidade, é também a possibilidade de que eles entendam plena e corretamente a mensagem", disse o diretor do IRTP.




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