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A Luminate, do grupo Omidyar, está investindo US$ 920 mil no Nexo. Saiba o que o jornal digital vai fazer com este dinheiro



Em três anos e três meses de operação, o brasileiro Nexo Jornal se tornou referência regional e global de jornalismo digital. Além dos prêmios internacionais que recebeu neste período, outro indício significativo desta posição é que o jornal acaba de receber um apoio no valor de US$ 920 mil (cerca de R$ 3,4 milhões) da Luminate, organização do grupo Omidyar que tem apostado em meios jornalísticos independentes ao redor do mundo como propulsores de mudanças sociais e guardiões da democracia.

O Nexo anunciou no fim de janeiro a parceria, que será voltada a ampliar o alcance e o impacto do jornalismo de contexto produzido pelo meio brasileiro, financiado até o momento pelo investimento de seus cofundadores mais a receita de assinaturas.

“Há muita afinidade entre a missão da Luminate e a visão do jornal”, disse Paula Miraglia, cofundadora e diretora do Nexo, ao Centro Knight. O apoio, segundo ela, “é um reconhecimento da qualidade do nosso trabalho e do Nexo como ator importante no jornalismo no Brasil. Se você olhar para outros projetos que a Luminate apoia no mundo, são iniciativas que estão pensando o jornalismo de forma muito inovadora.”

Nexo aposta em jornalismo de contexto e análise e visualização de dados (Reprodução)

O grupo Omidyar foi fundado e é financiado integralmente pelo franco-americano Pierre Omidyar, cofundador do eBay, e por sua esposa, a bióloga Pam Omidyar. O grupo reúne uma série de iniciativas, empresas e organizações filantrópicas, como a Luminate, que se dedicam a catalisar impacto social. Entre os meios que são ou já foram apoiados pelo grupo na região estão os sites Agência Pública (Brasil), El Faro (El Salvador), Ojo Público (Peru) e Chequeado (Argentina) e o impresso La Diaria (Uruguai).

A Luminate, lançada em outubro de 2018 a partir da experiência do grupo na área de governança e engajamento cidadão, apoia no momento iniciativas jornalísticas como Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ, na sigla em inglês), Forbidden Stories, The Correspondent e Africa Check.

“Acompanhamos o trabalho do Nexo desde sua fundação. Em conversas nossas com parceiros no Brasil sobre o ecossistema de notícias e de mídia independente e os meios que eles apoiavam e em que confiavam, o Nexo sempre era citado”, disse Felipe Estefan, diretor da Luminate para a América Latina, ao Centro Knight. “Ficamos muito impressionados pelo compromisso [do Nexo] em aprimorar o uso de canais digitais para alcançar o grande público e em produzir conteúdo de qualidade que promova o debate democrático.”

Segundo Estefan, a Luminate procurou o Nexo no começo de 2018 e iniciou as conversas sobre um possível apoio da organização ao jornal. “À medida que conversávamos sobre o compromisso deles de construir um empreendimento de mídia sustentável e comercialmente viável, aquilo que nos impressionava no Nexo enquanto acompanhávamos de longe se revelou verdadeiro quando nos conhecemos melhor, e isso nos levou ao compromisso que acaba de ser anunciado.”

Segundo Miraglia, o apoio da Luminate é a primeira inversão externa no Nexo, que hoje conta com 33 pessoas em sua equipe. O jornal digital se lançou e se mantém até o momento com investimento próprio de seus fundadores – a antropóloga Miraglia, a engenheira Renata Rizzi e o jornalista Conrado Corsalette – e com a receita de assinaturas do Nexo e das plataformas NexoEDU, de conteúdo jornalístico voltado para uso em sala de aula, e Escola N, de cursos livres sobre questões contemporâneas.

A diretora disse que o Nexo não divulga números de audiência, custos de operação e valor da receita, mas que deve chegar ao break-even ainda em 2019. “A expectativa é que o jornal passe a se pagar completamente esse ano com assinaturas e as outras fontes de receita. As assinaturas certamente são o mais expressivo, mas é a combinação de todas essas fontes que a gente acredita que vai fazer o jornal sustentável.”

Miraglia avalia que o Nexo se encontra hoje “com a operação consolidada, com uma redação que funciona e que desenvolveu um modo de produzir extremamente colaborativo, juntando competências muito variadas, o que é a marca do jornal”. “O que a gente pretende fazer esse ano, e o investimento da Luminate vem nesse momento, é investir em áreas em que não investimos tanto até então”, como aperfeiçoar o sistema de assinaturas e ter melhores estratégias de retenção e de atendimento a assinantes, disse a diretora do jornal digital.

“Temos uma grande relação com nossos assinantes e vemos um valor enorme nessa relação, então vamos investir nisso. E investir ainda mais na frente de tecnologia, que é muito importante para nós, e fazer com quem mais gente ainda conheça o Nexo”, afirmou Miraglia.

Estefan disse que a Luminate procura trabalhar com organizações que têm “um histórico de impacto e modelos claros de sustentabilidade” e “que nos inspiram e onde percebemos que podemos ter um valor”. No caso do Nexo, além desses fatores, “ficamos muito inspirados pelo compromisso dos fundadores com seu trabalho”.

Em 2017, o Nexo se tornou o primeiro meio brasileiro a ganhar o prêmio de excelência em jornalismo online da Online Journalism Association (ONA) (Foto: Divulgação/Nexo)

“Eles estão colocando dinheiro do próprio bolso e investindo seu tempo e construindo algo que se tornou um modelo de como criar um empreendimento de mídia independente. Quando percebemos isso, começamos a conversar sobre como poderíamos estruturar uma parceria que permitisse que nós os apoiássemos para que eles continuassem a realizar a visão que criaram.”

O diretor da Luminate explicou que a organização realiza diferentes tipos de investimentos nos projetos que apoia, mas que decidiu por uma doação ao Nexo porque “sentimos que eles não deveriam ser obrigados a devolver o dinheiro, porque o que precisam agora é de mais recursos para conseguirem fazer mais do bom trabalho que fazem.”

Estefan ressaltou que não haverá interferência editorial da Luminate no jornal, mas a organização vai acompanhar o trabalho do Nexo em direção aos objetivos acordados entre as duas entidades. “É menos sobre coisas que eles têm que fazer para nós e mais sobre coisas que concordamos juntos que seriam bons indicadores de que eles estão no caminho para alcançar seus objetivos, e caso não estejam, como nós podemos ajudá-los a chegar lá”, explicou. Entre estes indicadores estão números de audiência e de receita, mas também o impacto social e o alcance do conteúdo do Nexo.

A conversa entre Luminate e Nexo se iniciou antes das eleições no Brasil, que intensificaram a polarização política e foram cenário para o aumento da desconfiança em relação à imprensa, fomentada especialmente por Jair Bolsonaro (PSL), candidato presidencial que venceu as eleições e hoje é presidente do país, e seus aliados.

O investimento no jornalismo neste momento, portanto, tem um peso ainda mais significativo.

“O Nexo tem como missão pensar o jornalismo como elemento fundamental para contribuir para o fortalecimento da democracia no Brasil. A Luminate vê o jornalismo independente como um elemento essencial para as democracias. Então há uma convergência de visões, sem dúvida, que ganha importância quando se está vivendo esse momento em que justamente o jornalismo vem sendo desqualificado quando faz o seu trabalho”, observa Miraglia.

“Não existe governo democrático sem meios independentes, sem o direito de a imprensa fazer seu trabalho e questionar as autoridades, sem os cidadãos serem informados sobre o que está acontecendo em seu entorno”, disse Estefan. “Considerando que o jornalismo independente é essencial para a democracia, estamos animados para continuar trabalhando no Brasil para garantir que mais vozes independentes possam seguir desempenhando seu papel na proteção da democracia, informando os cidadãos e cobrando os poderosos, independemente de quem eles sejam e do partido a que pertencem.”




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