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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Sites latino-americanos de notícias compartilham suas inovações para superar a censura e a falta de financiamento




Por Silvia Higuera y Paola Nalvarte

Uma “rodada relâmpago” concentrada em projetos de inovação fechou o 12º Colóquio Ibero-Americano de Jornalismo Digital do último dia 14 de abril, evento realizado no dia seguinte ao encerramento do Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ).

Por meio de curtas apresentações de cinco minutos, representantes de meios de Argentina, Brasil, Guatemala, Uruguai e Venezuela contaram aos presentes como tentam enfrentar os desafios comuns relacionados com financiamento, obtenção de informação e atração e fidelidade de sua audiência, ao mesmo tempo em que buscam fazer jornalismo de qualidade.

César Batiz of El Pitazo presents at the 12th Iberian-American Colloquium on Digital Journalism. (Erika Rich/Knight Center)

El Pitazo, um dos portais de notícias com maior cobertura local e nacional da Venezuela, iniciou as apresentações. Seu diretor, César Batiz, mostrou em um vídeo um resumo dos desafios e obstáculos que devem enfrentar diariamente como meio.

Ante esta conjuntura, o meio multiplataforma El Pitazo capacitou até o momento 1.076 “infocidadãos” que, de acordo com Batiz, são correspondentes cidadãos com quem contam para conseguir cobrir as notícias em cada região do país.

Para conseguir vencer a censura a que estão constantemente submetidos, e depois de sofrer três bloqueios de seu domínio, criaram um aplicativo com o nome de seu portal. Através dele, encontraram outra maneira de informar sobre o que acontece na Venezuela.

Também consideram muito importante fazer alianças editoriais com outros meios para buscar maior financiamento e também trabalhar colaborativamente.

Devido aos desafios que o jornalismo sempre enfrenta em relação a fontes de financiamento, o site Nómada, da Guatemala, encontrou na venda de produtos de design a possibilidade de financiar cerca de um quarto de seus gastos. “Investir em design é rentável”, disse Lucía Menéndez, editora de arte e design do site.

“O design não só tem um impacto no jornalismo, como também [faz com que] o jornalismo também possa produzir dinheiro”, disse Menéndez. Por essa aposta no design, nasceu Nueve, a agência de conteúdo de Nómada que desenvolveu até o momento cerca de 30 produtos.

Os meios digitais argentinos Chequeado e Infobae também contaram suas experiências.

Olivia Sohr of Chequeado talks about the first fact-checking site in Latin America. (Erika Rich/Knight Center)

Chequeado, lançado em 2010 e o primeiro site de verificação do discurso público na América Latina, tem como objetivo seguir se expandindo.

Segundo o diretor de inovação editorial Pablo Fernández e a coordenadora de projetos Olivia Sohr, o que buscam é formar uma rede de checadores na América Latina que mediante encontros possam trocar e compartilhar técnicas de checagem e novos formatos de contar histórias, tanto em relação ao discurso público e à desinformação que circula nas redes sociais, as chamadas “fake news”.

Já organizaram até o momento três encontros na Argentina e convidaram os colegas de outros países presentes no Colóquio a se somar a esta iniciativa.

Já a Infobae aposta tanto em conteúdos jornalísticos de qualidade como por conteúdos que sejam massivos e viralizem, contou o subdiretor Leonardo Mindez. “Acredito que esta é a maneira de sobreviver, hoje, para nós”, afirmou.

“Apostamos em histórias de qualidade para contar os casos da atualidade, e em histórias antigas (....) que foram esquecidas, e são as que mais nos dão tráfego. Estamos muito atentos às métricas, a equipe de redes sociais trabalha a par da redação, (...) para saber o que interessa às pessoas nesse momento”, disse Mindez. Infobae teve 58 milhões de visitantes únicos em março, sendo o segundo meio em espanhol mais importante do mundo, acrescentou seu diretor.

Quanto ao Brasil, duas mulheres apresentaram casos de meios que, ainda que tenham focos diversos, compartilham o mesmo objetivo: empoderar a comunidade por meio da informação.

Izabela Moi compartilhou sua experiência com a Mural, uma agência de jornalismo das periferias da qual é cofundadora e codiretora executiva. Mural, que nasceu como um blog do jornal Folha de S. Paulo em 2010, cresceu em participantes e impacto ao ponto de em 2015 passar a ser um site próprio, e em 2018 se registrar como uma organização sem fins lucrativos.

Moi explicou que em 2010 notou “desertos de notícias” nas periferias da Grande São Paulo, uma zona que inclui 39 cidades e 21 milhões de pessoas. Somente chegavam às notícias quando aconteciam “coisas ruins”, como assassinatos ou roubos.

Com o trabalho voluntário de 189 jovens repórteres das periferias – conhecidos como “muralistas” - o site já contou mais de 2.500 histórias. Atualmente, tem parcerias com Folha, Carta Capital, CBN e Global Voices, entre outros, para compartilhar seu conteúdo.

Isabela Moi explains the mission of Brazilian journalistic organization Agência Mural. (Erika Rich/Knight Center)

“Mural tem o mesmo princípio do mural mexicano: com o povo e para o povo”, disse Moi.

Para Maria Vitória Ramos, a informação também é chave. Por isso ela sabe que sua tarefa como diretora financeira e repórter do site Fiquem Sabendo, fundado em 2015, é “criar uma sociedade informada e fazer o controle social do governo”.

Ramos explicou que um dos projetos mais recentes do site especializado em fazer reportagens com base em dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) do país quer revelar mais de 70 mil documentos que “o governo não publica, ainda que não estejam mais sob sigilo”.

Ramos anunciou que fizeram uma parceria com a organização Muckrock que compartilhou com eles toda sua tecnologia e seus documentos.

“Tudo que organizamos está em licença creative commons. Abrimos a base de dados original”, disse Ramos. “Promovemos conteúdo de interesse social”.

O caso de la diaria do Uruguai demonstra como é sim possível manter um meio com o apoio do público. Segundo disse Damián Osta, cofundador e gerente do jornal, as pessoas começaram a apoiar o jornal antes mesmo dele existir, e este grupo criou uma cooperativa que chamam sua comunidade.

Depois de anos de trabalho que lhe permite ser atualmente um meio em que trabalham 120 pessoas e com uma boa sustentabilidade financeira, Osta está convencido de que sem essa comunidade não seria possível sua existência.

“Nos reinventamos a cada dia. Partimos da base de reconhecer que em nossa comunidade está o valor principal. Pedir a eles quando necessitamos ‘nos ajudem a fazer um jornalismo melhor’”, disse Osta. Segundo ele, já não é necessário pedir-lhes dinheiro todo o tempo para poder continuar operando.

Já não são um diário impresso, e por isso seus cadernos especiais (agora em seu site) estão centrados em tratar temas de interesse dessa comunidade. Ele explicou que lhes agrada se sentir tão próximo dela, que para celebrar o aniversário do jornal fazem uma festa da qual participam os jornalistas e a comunidade.




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