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Jornalistas mexicanos e seus familiares confrontam novo presidente durante suas conferências de imprensa diárias



Desde que o presidente do México, Andres Manuel Lopez Obrador, tornou diárias sua já famosas conferências de imprensa matutinas, em que responde a perguntas do público e da imprensa, jornalistas e suas famílias estão tendo a oportunidade de confrontá-lo sobre as ameaças que recebem eles e sua profissão.


A screenshot of Mexican journalist Héctor Valdez speaking at the May 17 daily press conference of President Andrés Manuel López Obrador. (Govt. of Andrés Manuel López Obrador)

Recentemente, um repórter dos sites de notícias "Tulum en Red" e "Quadratín" em Tulum, Estado de Quintana Roo, disse ao presidente em uma de suas conferências de imprensa que a situação no Estado é muito grave, que se vive um "clima de terror". Três de seus colegas foram assassinados no último ano e ele está "ameaçado de morte", disse o jornalista ele ao presidente.

Hector Valdez disse que, apesar de contar com as medidas do Mecanismo de Proteção para Defensores dos Direitos Humanos e Jornalistas, não se sente protegido.

Valdez disse que fugiu de Tulum em 10 de maio, deixando tudo para trás, para chegar à Cidade do México depois de receber ameaças de morte. Ele também relatou que recebeu agressões físicas de policiais estaduais, que segundo ele foram por ordem do Secretário de Segurança Pública de Quintana Roo.

"Eu estava aqui [no lugar de conferências de imprensa do presidente] às seis horas da manhã tentando descobrir como entrar; me inteirei que mataram Francisco [Romero], que era meu amigo", disse Valdez dirigindo-se a Lopez Obrador.

"Mas eles já mataram dois dos meus amigos também, um em Carrillo Puerto em julho e junho um outro amigo também, em Playa del Carmen. Naquela área é verdadeiramente grave o que acontece, e eu lhe digo de verdade, na primeira pessoa. Estou ameaçado de morte", afirmou.

José Guadalupe Chan Dzib e Ruben Pat Caiuch, ambos jornalistas do Semanario de Playa News, foram assassinados no Estado de Quintana Roo, em junho e julho de 2018, respectivamente.

Mas Valdez não é o único jornalista que compareceu diante do presidente para lhe pedir ajuda sobre a grave situação que enfrentam os jornalistas no país.

No início de maio, o filho do jornalista assassinado Carlos Dominguez, que compartilha o mesmo nome e ofício de seu pai, disse ao presidente que o mentor da morte de seu pai continua foragido.

Dominguez, que tinha 77 anos, foi morto a facadas dentro de seu carro e na frente de seus familiares, em plena luz do dia e no centro da cidade de Nuevo Laredo, Estado de Tamaulipas, no dia 13 de Janeiro de 2018. O jornalista de Nuevo Laredo, que trabalhava de forma independente, cobria violência e política.

O filho do jornalista disse que seu pai foi morto por escrever sobre a suposta corrupção que envolveria o ex-prefeito da cidade de Nuevo Laredo, que segundo ele estaria sendo cobrado pela Justiça por outros crimes.


In this screenshot from the president's Jan. 25, 2019 press conference, Griselda Triana demands justice for her husband Javier Valdez who was killed in Sinaloa in 2017. (Govt. of Andrés Manuel López Obrador)

"Eu exijo respeitosamente, como o filho, justiça para o meu pai, presidente. É tudo o que peço, e é legítimo. Eu preciso disso como jornalista ", disse o jornalista do CDMX Express. Além disso, solicitou a intervenção do presidente para que o assassinato de seu pai não fique impune e que o caso passe ao nível federal e não continue em Tamaulipas, onde a investigação segue por mais de um ano, sem muito progresso.

Lopez Obrador respondeu a Domínguez filho que atenderiam seu pedido no mesmo dia para que o atendesse a Secretaria de Governo e o Procurador-Geral da República, Alejandro Gertz.

Entre outras queixas recebidas pelo presidente mexicano durante suas conferências está a de Griselda Triana, esposa do jornalista Javier Valdez, que foi morto a tiros em 15 de maio de 2017. Ela também exigiu que o governo de Lopez Obrador no início de janeiro que se faça justiça para seu marido, pouco depois que ele assumiu o cargo. Ao contrário de Valdez e Dominguez, ela foi convidada para falar no púlpito e recebeu um relatório privado da Secretaria de Governo.

"Não me importa de que organização criminosa veio a ordem, para mim o que importa é que fique muito claro, e que o Ministério Público, agora o novo Ministério Público da República, fazer o seu trabalho, aprofunde mais a investigação, que seja muito rigorosa, muito exaustiva, e que se determine quem deu a ordem para matar Javier. É muito claro que ele foi assassinado por seu trabalho porque não gostaram do que ele publicou", disse Triana. "Exigimos verdade, justiça e punição para os assassinos de Javier, os materiais, mas principalmente os intelectuais", concluiu.

Diante do Presidente, a Secretária de Governo, Olga Sánchez Cordero, respondeu a Triana que nenhuma linha de investigação será descartada, e que o assassinato de Javier Valdez, nem de qualquer outro jornalista será esquecido.

Estas respostas a jornalistas ameaçados e suas famílias contrastam com o tratamento e as críticas do presidente a outros jornalistas e a meios de comunicação no país, frequentemente emitidas nas mesmas conferências de imprensa diárias.

Como muitos notaram, incluindo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), o presidente usa termos como "conservador", "neoliberal" e "fifi" para criticar a imprensa.

Durante uma de suas conferências de imprensa em abril, López Obrador criticou duramente o jornal Reforma, um dos maiores do México. Na ocasião, o presidente questionou a ética jornalística do jornal e chamou o jornal de conservador depois de publicar uma nota sobre o reforço da vigilância da casa presidencial depois de o presidente receber uma ameaça por parte de uma organização criminosa.

No artigo, o jornal indicou o endereço do presidente, informação que o próprio presidente disse que era pública, mas expressou seu descontentamento por ter sido publicada.

Esta não é a primeira vez que Lopez Obrador criticou o jornal Reforma e seus jornalistas.

De acordo com Animal Político,o diretor editorial da Reforma, Juan E. Pardinas, disse que "esta seria a 13a vez que o presidente atacou o jornal".

Após as declarações do presidente, diretor editorial do meio recebido inúmeras ameaças de morte e ataques em redes sociais por supostos seguidores e simpatizantes de Lopez Obrador. Na ocasião, a organização Artigo 19 do México solicitou proteção Pardinas.

Além disso, jornalista mexicano da Univision Jorge Ramos questionou o presidente na conferência de imprensa de 12 de abril a respeito dos números elevados que totalizam 8.524 mexicanos mortos durante seus primeiros três meses no cargo. Lopez Obrador o convidou ao palco para ver os seus próprios números, que não concordavam com o que Ramos, segundo o jornalista argumentou, tinha obtido páginas oficiais.


This screenshot shows Univisión journalist Jorge Ramos asking Mexican President Andrés Manuel López Obrador a question during an April 12, 2019 press conference. (Govt. of Andrés Manuel López Obrador)

"Nos deixaram um país com muita violência porque havia impunidade e muita corrupção, que não existe mais", disse López Obrador em resposta. "Vamos resolver o problema", acrescentou ele.

Durante sua intervenção, Ramos também disse ao presidente que desacreditar a imprensa e pedir-lhe para revelar suas fontes era problemático. Isso em relação à carta que López Obrador enviou ao rei da Espanha e que Reforma reproduziu em seu diário, graças a fontes confidenciais. Após sua divulgação, o presidente pediu a Reforma para revelar suas fontes.

Depois de dizer, na conferência de imprensa, que Reforma era um jornal conservador e que ajudou a legitimar a fraude eleitoral em 2006, López Obrador disse que seu governo garantiria a liberdade de imprensa. "Nós nunca vamos atentar contra o jornalismo", disse ele na época.

Após a coletiva de imprensa, Ramos sofreu ataques nas redes sociais. E na conferência de imprensa seguinte a essa, o presidente comentou o que foi dito por um colunista, sobre o fato de que apenas jornalistas ruins estavam presentes em sua coletiva de imprensa, exceto Ramos. López Obrador disse diante do silêncio dos jornalistas presentes naquele dia que eles não eram apenas bons jornalistas, mas também prudentes. "Se vocês passam do limite, bem, já sabem, certo? O que acontece, certo?", enfatizou.

Segundo o CPJ, o presidente esclareceu essas declarações no dia seguinte dizendo que não se referia a ele, mas à sociedade, que seria a que cobraria os jornalistas que critiquem injustamente o governo.

*O Centro Knight tentou se comunicar com o porta-voz do governo mexicano, Jesús Ramírez Cuevas, sem sucesso.




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