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Presidente eleito da Argentina promete relação normal com a imprensa, mesmo quando jornalistas discordarem dele




Por Monica Yanakiew*

 

Buenos Aires - O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, assumirá o cargo em 10 de dezembro, enquanto o país enfrenta uma crise de dívidas e temores crescentes de default. Ele prometeu intermediar um "pacto social" entre empresários, trabalhadores e partidos políticos, para impedir a inflação de sair do controle. Mas Fernández também prometeu proteger a liberdade de expressão e manter um relacionamento normal com a imprensa - mesmo com jornalistas que eventualmente possam criticar seu governo.

Houve momentos em que esse relacionamento não foi tão "normal".

Alberto Fernández (Foto: Casa Rosada (Argentina Presidency of the Nation) [CC BY 2.5 ar])

Em 22 de agosto, dois meses antes das eleições presidenciais na Argentina, o conglomerado de mídia Clarín organizou um seminário sobre democracia e desenvolvimento em Buenos Aires. O presidente conservador Mauricio Macri, que estava concorrendo a um segundo mandato, e seu principal rival político, o candidato de esquerda Fernández, se revezaram no palco, recebendo perguntas de jornalistas. Uma das principais questões foi o relacionamento do futuro governo com a imprensa.

Eu tenho muitos amigos jornalistas….e na maioria dos casos não estão de acordo com o que eu penso. Como se pode viver num país onde colocam cartazes desses jornalistas [nas ruas] para que as pessoas cuspam neles”, disse Fernández. “Isso é uma vergonha", acrescentou, se referindo a uma das muitas campanhas de desprestígio que ocorreram durante o governo de Cristina Fernandez de Kirchner (2007-2015). As palavras dele foram recebidas com uma salva de aplausos, por mais de uma razão.

Muito antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, começar sua guerra contra a imprensa, acusando-a de promover "fake news", os argentinos testemunharam um conflito brutal de sete anos entre o governo de Cristina Kirchner e a grande mídia - principalmente o dominante grupo Clarín. Cada lado acusava o outro de manipular informações, mentir abertamente e - muito pior - de atacar a democracia.

Durante o governo de Cristina Kirchner, o jornalista investigativo Diego Cabot foi editor econômico do jornal La Nación. "Eram tempos difíceis porque, como jornalistas, cobríamos mentiras como forma de cobertura diária", disse Cabot ao Centro Knight. “O governo manipulava estatísticas oficiais para esconder a inflação crescente e pressionar os empresários. Muitas das pessoas que entrevistávamos estavam proibidas de usar a palavra inflação. Eles os pressionaram. Não sei dizer quantas vezes os entrevistei e eles fizeram de tudo para falar sobre inflação sem mencionar a palavra.”

Pior ainda, disse Cabot, era trabalhar em um ambiente hostil. “A tarefa do jornalismo, a forma como fazíamos nosso trabalho, foi colocada no centro do debate público - e era um debate desigual. Cristina usava o púlpito de presidente para atacar nossa credibilidade e não era possível debater de volta ou esclarecer dúvidas diante de um público que não eram seus consumidores.”

(Foto: Guillermo Tomoyose [CC BY 2.0])

Os ataques ficaram mais desagradáveis ​​e pessoais. Cartazes, camisetas e até meias com o slogan “Clarín mente” foram distribuídas em comícios. Em 2010, a organização de direitos humanos Mães da Praça de Maio realizou um julgamento simulado e condenou publicamente sete jornalistas conhecidos de cinco meios de comunicação como "traidores". Eles foram acusados ​​de fechar os olhos à ditadura militar (1976-1983) , "de ter traído o povo, de ter permitido que matassem e torturassem, de ter silenciado o horror".

Ao mesmo tempo, Clarín foi criticado por ter muito poder político e financeiro entre a mídia do país. Em 2012, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas escreveu: "A consequência dessa luta amarga é uma imprensa altamente polarizada. Por um lado, os críticos de Kirchner a acusam de sufocar a liberdade de imprensa ao recompensar os meios simpatizantes e silenciar - mediante regulações e a divisão da publicidade oficial - os meios que se opõem. Por outro lado, muitos acreditam que Clarín tem poder demais e utiliza sua enorme rede de meios para promover seus interesses comerciais privados".

Mas alguns jornalistas notaram avanços positivos para a imprensa com o governo de Kirchner.

"Durante o governo de Cristina Kirchner, Argentina aprovou uma lei eliminando sanções penais a jornalistas por calúnia e injúria", disse o jornalista do Página 12 Martin Granovsky ao Centro Knight. “Isso fez uma diferença. No governo de Carlos Menem [1989-1999], o governo movia processos contra nosso jornal o tempo todo.”

As tensões entre a imprensa e o governo esfriaram bastante quando Macri foi eleito em 2015. As autoridades do governo não se referiam mais aos jornalistas como "inimigos" e eram mais propensas a dar entrevistas, tanto para a imprensa local quanto internacional. A editora econômica de Clarín, Silvia Naishtat, diz que nunca teve tanto acesso à informação como nos últimos três anos e meio. “Houve uma mudança de política do governo em relação à imprensa: funcionários do governo te atendiam. Não digo que te davam a informação que buscava ou uma entrevista, mas atendiam ao telefone”, disse Naishtat ao Centro Knight. "Espero que isso não mude com o novo governo."

Desde agosto passado, as chances de Macri ser reeleito começaram a parecer muito reduzidas. "A inflação anual é superior a 50% - é provavelmente a terceira mais alta do mundo, depois da Venezuela e do Zimbábue. E se estima que a economia encolherá cerca de 3% em 2019. Nessas circunstâncias, é muito difícil para um governo vencer uma eleição", disse o analista político Rosendo Fraga ao Centro Knight.

Alberto Fernández com sua companheira de chapa e futura vice-presidente, Cristina Kirchner (Reprodução)
 

Agora, Cristina Kirchner retornará ao poder como vice-presidente. Ela foi eleita na chapa peronista com Fernández, que foi chefe de gabinete sob seu marido e antecessor no cargo (2003-2007), Néstor Kirchner, e também durante os primeiros meses de sua presidência. Depois de deixar o governo em 2008, Fernández tornou-se crítico vocal de seu ex-chefe - também em assuntos relacionados à guerra do governo com a imprensa.

"Quando eu fui chefe de gabinete, eu era responsável pelo Canal 7, e no Canal 7 não havia nenhum programa político, para evitar que alguém dissesse que se estava usando o canal público para fazer política", disse Fernández durante o seminário. “Depois que eu saí, veio o [programa político] 678. Eu também fui crucificado no 678”, acrescentou, lembrando como ele era chamado de “lobista do Grupo Clarín” toda vez que se manifestava contra o governo.

O programa 678 foi ao ar pela primeira vez em 2009, enquanto a polarização na Argentina aumentava. Seu principal objetivo era destacar o que considerava um uso tendencioso da informação pela grande mídia e oferecer o outro lado da história (principalmente o do governo) - mas, para a maioria dos jornalistas, era mera propaganda política. O debate na época, no entanto, era sobre outra coisa. "Não tenho dúvida de que 678 é um programa de propaganda. Mas me parece legítimo que o governo tenha um programa de propaganda em meio a tantos programas de oposição, que abundam", disse o ativista de direitos humanos e jornalista experiente Horacio Verbitsky, que é visto como alguém próximo ao governo Kirchner, durante um painel em julho de 2018. Como exemplo, ele mencionou Todo Noticias (TN) - o canal a cabo de notícias 24 horas do Grupo Clarín: "TN não é menos propaganda do que 678."

Assim que assumiu o cargo, Macri encerrou o programa 678 e modificou, por decreto, a Lei de Meios - uma das reformas mais controversas aprovadas por Kirchner. A lei foi proposta como um conjunto de regulamentações modernas e democráticas, substituindo as que datavam de 1980, quando não havia internet ou TV a cabo e a Argentina era governada por uma ditadura.

A lei de 2009 impôs restrições aos conglomerados de mídia, em um esforço para impedi-los de estabelecer monopólios no setor. Porém, era visto como uma ferramenta do governo para desmantelar o Grupo Clarín, que considerava ser seu maior e mais poderoso oponente. A holding é dona ou tem participação no maior diário da Argentina, Clarín, outros jornais e revistas, estações de rádio e canais de televisão, além da única fábrica de papel-jornal do país, a Papel Prensa.

O decreto de Macri suspendeu as restrições à propriedade de várias licenças (transmissão de televisão e rádio, televisão a cabo ou internet) e ao número total de licenças de transmissão que cada grupo de mídia pode ter. Isso reverteu os processos de desinvestimento forçado, que os grupos de mídia foram obrigados a cumprir para cumprir a Lei de Meios de Kirchner. Em 2016, Julio Blanck - que foi editor-chefe de Clarín por uma década - deu uma entrevista sobre como era trabalhar durante o governo Kirchner: “Fizemos jornalismo de guerra, sim. Isso é mau jornalismo. Mas fomos bons fazendo guerra. Estamos vivos e chegamos vivos ao final, ao último dia”, afirmou. "Eram as circunstâncias. Fiz coisas que em circunstâncias normais talvez não tivesse feito".

Então, quão normais serão essas circunstâncias na próxima administração? Fernández diz que os dois lados são culpados pela guerra e é hora de deixar o passado para trás. Ele se apresenta como um político capaz de unir os argentinos, numa época em que o país altamente endividado enfrenta uma grande crise econômica - que também impactou a indústria de meios.

Maurico Macri (Casa Rosada (Presidência a Nação Argentina), [CC BY 2.5 ar])

Em setembro, representantes de 11 "diários recuperados" (publicações que faliram e foram retomadas por seus trabalhadores) realizaram seu segundo encontro nacional para discutir sua sobrevivência. O dólar americano, que valia 13 pesos argentinos em 2015, agora está sendo negociado a 60 pesos. "Importar papel-jornal se tornou proibitivo", disse Gerardo Aranguren, editor do site do Tiempo Argentino, ao Centro Knight. “Podemos comprar no mercado local, mas os preços também aumentaram. A única fábrica da Argentina, Papel Prensa, é controlada pelo Clarín e pelo La Nación, que é o segundo maior jornal.”

Durante a presidência de Kirchner, o Tiempo Argentino pertencia a um grupo de mídia com fortes laços com o governo e era visto como uma ferramenta de propaganda. Quando Macri venceu a eleição, o pequeno diário perdeu fundos do Estado e o proprietário parou de pagar seus funcionários. Eles assumiram o prédio em 2016 e formaram uma cooperativa para administrar o “jornal recuperado”.

Agora, ele é impresso apenas aos domingos e é financiado principalmente por assinantes.

"Ainda imprimimos porque, no mercado de meios da Argentina, ainda é muito difícil monetizar uma página na internet", disse Aranguren. 83 pessoas trabalham para a cooperativa - a maioria jornalistas, que agora fazem de tudo, desde reportagem e edição até contabilidade e marketing. Mas os meios de notícias na Argentina - grandes e pequenos - depende muito da publicidade do governo. Tiempo Argentino espera obter uma fatia maior com Fernández como presidente.

O que o jornalista da Página 12, Martin Granovsky, espera do novo governo? “Espero que pare a discriminação que existia de Macri - por exemplo, contra o Grupo Octubre (Página 12 e Radio AM 750). E que o Estado fomente com políticas públicas a diversidade de vozes no setor audiovisual, seguindo os parâmetros da Unesco.”

Jornalistas da grande mídia ainda desconfiam de Fernández. "Alberto Fernández venceu a eleição como um político moderado, mas foi Cristina Kirchner quem decidiu que ele concorreria à presidência com a chapa peronista e ela é a que tem mais votos", disse Cabot. "Ainda não sabemos quanto [ela] vai influir no futuro governo."

Durante a campanha, Kirchner deu a entender que ainda acha que a maior parte dos meios é tendenciosa contra ela e culpou jornalistas por favorecerem Macri, ao não informar sobre a gravidade da crise econômica. "Eu dizia a Alberto [Fernández] (...) Se você não comprava o Página 12 ou não assistia [o canal de televisão] C5N, estava tudo bem na Argentina, estava tudo uma maravilha", disse ela durante uma apresentação em agosto de 2019. Mas ela também admitiu que “raiva e confronto” não eram a melhor maneira de lidar com críticas - sejam verdadeiras ou não.

Em sua reunião anual, a Associação de Entidades de Notícias da Argentina (Adepa) pediu aos candidatos presidenciais que mantenham a liberdade de imprensa. "Esperamos que, no exercício do poder, a nova administração ratifique a promessa de Alberto Fernández de não reeditar assédio ou perseguição contra meios e jornalistas", disse o presidente da Adepa, Martin Etchevers, ao Centro Knight. "Esperamos também que não se restrinja a liberdade de imprensa por vias diretas ou indiretas, que se promova o acesso à informação de maneira ampla e igualitária, que não haja represálias estatais aos meios críticos.”

A reunião também abordou novas questões. A publicidade em jornais e revistas caiu em consequência da crise econômica da Argentina, juntamente com a revolução digital. Agora, “a maior parte da publicidade digital, que representa a principal porção da torta de publicidade global, está sendo absorvida por duas empresas. Google e Facebook se nutrem de conteúdo jornalístico, com os quais obtêm benefícios econômicos diretos e indiretos, sem remunerar seus geradores”, disse Daniel Dessein, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da Adepa, durante a reunião. Esse é mais um desafio que as organizações de mídia argentinas enfrentam.

 

*Mónica Yanakiew é jornalista brasileira-americana de televisão e impressos, com vasta experiência cobrindo grandes eventos em todo o mundo, desde guerras e revoluções na Europa Oriental e no Oriente Médio até crises políticas e econômicas na União Europeia e na América do Sul. Ela trabalhou para os principais jornais e canais de televisão do Brasil e também para o Philadelphia Inquirer. Atualmente mora em Buenos Aires e é coautora do livro "Argentinos: Mitos, Manias e Milongas" (Planeta 2005).




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