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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Fundação espanhola que colabora com a imprensa latino-americana busca mudar a narrativa das histórias de migração



Ao abordar histórias sobre migrantes no jornalismo, "temos que parar de falar sobre o caminho porque isso está nos matando", disse Lucila Rodríguez-Alarcón, diretora geral da Fundação espanhola de jornalismo e plataforma porCausa, ao Centro Knight.

Na porCausa, uma plataforma jornalística e de investigação sobre migração da Espanha, em vez de falar sobre a migração a partir de uma abordagem de direitos humanos em suas reportagens, “falamos sobre a migração de um foco em relação a quanta impunidade é produzida no processo migratório e, portanto, a quanta corrupção,” afirmou Rodríguez-Alarcón. A ideia, continuou ela, é parar de nos fazer as mesmas perguntas sobre o assunto.

A equipe da porCausa é composta por um grupo multidisciplinar de pesquisadores e jornalistas que se reuniram há pouco mais de seis anos para tratar de questões sociais e de direitos humanos. Por três anos, se especializou principalmente em questões de migração.

Rodríguez-Alarcón, que, além de liderar a porCausa, é engenheira agrícola e especialista em comunicação política, acredita que a confluência de várias disciplinas enriquece a investigação jornalística.

De início, Rodríguez-Alarcón disse: “tínhamos o dilema de nos tornar um meio de comunicação ou servir a mídia; nossa decisão foi servir a mídia. Somos como uma redação móvel especializada em migração.”

Todo o conteúdo e materiais do site porCausa são de uso gratuito e download grátis. "De fato, eles nos copiam muito,” ela ri. “Estou muito orgulhoso disso.”

Embora seu conteúdo jornalístico seja produzido para um público local, da Espanha, suas investigações, narrativas propostas e os espaços internacionais onde se reúne para discutir a narrativa do jornalismo migratório são compartilhados com jornalistas e meios de comunicação da América Latina, como El Faro, de El Salvador; Nómada, da Guatemala; Animal Político e Periodistas de A Pie, do México, entre muitos outros na região.

Da mesma forma, disse Rodríguez-Alarcón, a porCausa está em constante colaboração com a Fundação Gabo. Um exemplo disso é que parte dos materiais e guias de seu relatório Novas Narrativas sobre Migração, publicado em 2019, foi usada ​​no workshop de reportagem e notícias sobre como contar e investigar a migração conduzida pela renomada jornalista colombiana María Teresa Ronderos. Este workshop foi realizado durante a edição mais recente do importante Festival Gabo, organizado anualmente pela fundação jornalística do falecido escritor colombiano Gabriel García Márquez.

PorCausa é uma "boa referência e um bom conector" para o jornalismo que cobre a migração, disse Ronderos ao Centro Knight. “Acredito que eles vão acabar criando a comunidade mais forte de jornalistas de migração, ajudando todos a se conectarem. Eles estão se tornando uma boa referência para jornalistas que vão começar ou que já cobrem a migração”, disse Ronderos.

Fontes de financiamento

PorCausa depende muito de doações e um sistema de associação. Também recebe receitas de trabalhos de consultoria, serviços como suporte técnico, organização de conferências, entre outros.

“Temos uma base de doadores de mais de 350, de quantidades muito variadas. Alguns deles são muito, muito grandes. Temos dois grandes, temos um grande e grande doador de muito dinheiro por ano que, bem, é praticamente 25% do nosso orçamento. É um doador único e privado”, explicou Rodríguez-Alarcón.

Uma das organizações que a ajudou a começar, no início, foi a Open Society Foundations. "Não estaríamos vivos sem a Open Society", disse Rodríguez-Alarcón.

Ronderos, que na época era diretora do Programa de Fundamentos da Sociedade Aberta de Jornalismo Independente, contou as razões pelas quais decidiu apoiar o porCausa.

"O que gostamos foi que, primeiro, eles levam o público em consideração,” disse Ronderos. “Eles são extremamente abertos ao público, pensam muito sobre com quem estão falando e acho que na questão da imigração é, até onde eu sei, o grupo que mais pensou em como quebrar o discurso que sempre fica trancado em 'bolhas'”,disse ela.

Em questões migratórias, explicou Ronderos, sempre há o lado daqueles que são anti-migrantes e, do outro lado, os que são pró-migrantes, “e esses grupos nunca se falam, e eles tentaram desenvolver uma narrativa muito original, muito linda, que transcende isso. Eles estão tentando pensar em como conseguimos chegar ao outro lado e como conseguimos quebrar esse tipo de bolhas que nos separam.” Eles apelam ao humor e a outras maneiras de dizer de acordo com a jornalista colombiana, atualmente diretora e cofundadora do Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP).

Novas narrativas e migração

Para Rodríguez-Alarcón, a questão da migração deve ser naturalizada, para ter abordagens contra-intuitivas para abrir debates que geralmente não são explorados sobre essa questão.

Lucila Rodríguez-Alarcón (Foto: Twitter)

"Você precisa falar sobre vizinhos, sobre refeições, sobre música, sobre história,” disse ela.

"Porque quando você fala mal do migrante, você o exclui, mas quando fala bem dele, também o exclui, porque ele não deixa de ser um migrante, de ser diferente."

No relatório Novas Narrativas sobre Migrações, publicado pelo por Causa em 2019, a investigação, que levou cerca de três anos, trabalhou em vários aspectos de como lidar com a migração. O projeto que resultou no relatório teve como objetivo repensar o significado de jornalismo sobre migração.

“A narrativa da qual queremos fugir é, por um lado, a anti-migração e, por outro, a assistência social. O primeiro está ancorado no medo; o segundo, com pena,” eles dizem em seu site sobre a abordagem do relatório. Sua premissa é transformar a narrativa existente para a cobertura da migração, reconstruir a estrutura que a circunscreve.

"A vida começa com a migração, os movimentos existem desde as origens da humanidade e são processos que não podem ser evitados por muitos muros construídos e controles que desejam ser impostos,” explica em seu site.

Da mesma forma, disse Rodríguez-Alarcón, jornalistas e pesquisadores devem começar a se fazer outras perguntas, como "quem está lucrando com a migração?"

Nesse sentido, em 2017, a porCausa realizou uma investigação completa sobre o setor de controle de imigração na Espanha. Dentro dele, eles incluíam todos os lobbies das diferentes empresas que compõem esse setor,”que é basicamente o mesmo setor de segurança e defesa,” disse Rodríguez-Alarcón.

Entre outros espaços de debate, a fundação organizou pela segunda vez o Congresso Internacional de Jornalismo sobre Migrações em outubro de 2019. Convocou jornalistas e meios de comunicação da América Latina e de outras partes do mundo para analisar as diferentes maneiras de abordar as histórias de migração em jornalismo.

Além disso, faz parte do escritório técnico do Fórum Ibero-Americano de Migração e Desenvolvimento, organizado pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (Segib), em cuja última edição introduziu pela primeira vez o tema das novas narrativas no debate, segundo Rodríguez-Alarcón.




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