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Blog JORNALISMO NAS AMERICAS

Como um meio digital independente do Uruguai atingiu a sustentabilidade financeira em um ano de vida, mas crescer é um risco



Ter sustentabilidade financeira é um feito e tanto para um meio jornalístico digital novo, ainda mais se tem origem num país pequeno. Por isso o caso do site uruguaio Amenaza Roboto é notável. Em um ano, a plataforma multimídia que cobre ciência e tecnologia produzidas na América Latina para um público falante de espanhol está com as contas pagas.

“Acho que é mais fácil encontrar um nicho não atendido no continente e, com a tecnologia, acho que de alguma forma a mesma coisa também acontece. Estamos atendendo a algo que ainda têm muito espaço para ser tratado de maneira mais refinada,” explicou o jornalista Miguel Ángel Dobrich, fundador de Amenaza Roboto, ao Centro Knight. 

O site  é uma start-up jornalística desenvolvida por Dobrich a partir da experiência dele como Tow-Knight Fellow no programa de Jornalismo Empreendedor da Craig Newmark Graduate School of Journalism na CUNY em 2018. E segue o passo a passo do manual das start-ups de sucesso: encontrar um nicho, começar pequeno, testar o produto, medir o resultado e aprimorar. O jornalista percebeu que faltava um veículo que cobrisse tecnologia e ciência do ponto de vista latino-americano e testou o interesse do público com um podcast:

Miguel Ángel Dobrich é o fundador de Amenaza Roboto. Foto: Balvano

“Como produto mínimo viável, que é o Roboto News, que começamos produzindo notícias agregadas para saber que havia a possibilidade de focar em uma rede que tentará estabelecer pontes entre países com base no desenvolvimento de ideias, porque na América Latina acontece sempre que sabemos dos problemas políticos dos problemas econômicos de nossos vizinhos, mas não o desenvolvimento de, por exemplo, tecnologias que podem ser totalmente benéficas para nós, que podem ser banais ou profundamente úteis,” afirmou Dobrich.

A partir daí, a plataforma cresceu para um podcast de entrevistas, Amenaza Roboto, e um canal de vídeos no YouTube, Roboto News Semanal, além de outras produções, como a série El Futuro, em que latino-americanos especialistas em suas áreas refletem sobre o futuro. A primeira temporada foca no Uruguai, mas o plano é usar a mesma abordagem com entrevistados de outros países da região, disse Dobrich.  

Vender é fácil, receber é difícil

A trajetória de Dobrich como jornalista empreendedor começou com a rede de podcasts Dobcast Media, que lançou em 2015 depois de uma carreira dedicada ao jornalismo cultural, como colunista e crítico de cinema no programa Justicia Infinita, na Océano FM, e no portal 180. Além de Amenaza Roboto, a rede Dobcast produz outros três podcasts: Montevideo No, Vera Basket e Deep Sh*t.

“Eu ouvia podcast há anos e me perguntava por que no Uruguai não se fazia podcast de maneira profissional. Com isso, não estou sendo pejorativo, mas quero dizer profissional a esse respeito: produtos que atingem o número máximo de ouvintes mantendo um bom padrão técnico,” disse o jornalista.

A carreira consolidada no rádio e no jornalismo cultural impulsionou a empreitada do uruguaio no mundo dos podcasts. Por um lado, garantiu acesso a entrevistados importantes. Por outro, visibilidade junto ao público e potenciais patrocinadores. 

Natalia Arralde, Miguel Dobrich e Salvador Banchero, de Amenaza Roboto, na ONA 2019. Foto Tali Kimelman

“Já éramos conhecidos pelo mercado. Portanto, era inquestionavelmente uma vantagem chamar a atenção para ter pessoas interessadas no que estávamos fazendo, não como uma transição. Parece natural passar do rádio aberto para o áudio on demand”, contou Dobrich.

O caminho parecia fácil, se não fosse por um detalhe importante. Segundo explicou o jornalista, no Uruguai, as empresas pagam impostos sobre os valores faturados, mesmo que não tenham sido efetivamente recebido. Num empreendimento ainda pequeno, isso pode ser mortal para as contas:

“O mais problemático não tem sido a venda. Na minha experiência como jornalista empreendedor, [o mais difícil] tem sido não morrer subfinanciado, e eu explico. Eu acho que vender é fácil. Eu acho que o problema no Uruguai é cobrar, não vender. No Uruguai, há uma cultura de atraso no pagamento”, disse Dobrich. No momento da entrevista, em outubro, ele ainda esperava receber as quotas de patrocínio de junho.

Com o sucesso rápido de Amenaza Roboto, o site recebeu, de acordo com Dobrich, três propostas de investimento, que ele recusou, por temer colocar em risco as finanças da empresa e não conseguir dar conta de cumprir com as obrigações com o governo. A ideia é diversificar as fontes de receita para não depender de apenas um anunciante e, com isso, garantir o fôlego se houver atrasos de pagamentos. 

Para Janine Warner, fundadora do SembraMedia, uma organização que ajuda empreendedores de meios digitais, a serem mais sustentáveis, a decisão parece correta. Segundo ela, não estar preparado para o crescimento que vem a partir de um aporte de recursos pode ser fatal para uma empresa de mídia em estágio inicial. 

“O crescimento pode matar uma startup, especialmente se acontecer muito rápido. Dobrich estava certo em ser cauteloso e geralmente incentivo os empreendedores a começar pequenos, testar cuidadosamente suas ideias e depois expandir quando eles têm um modelo comprovado e a equipe que precisam para crescer,” disse Warner ao Centro Knight.

Do Uruguai para a América Latina

Janine Warner, de Sembramedia: 'crescimento rápido pode matar uma startup'. Foto: cortesia

Além da questão dos atrasos nos pagamentos, Dobrich sabe também que para crescer precisa intensificar os esforços de ir além das fronteiras nacionais. O Uruguai, com 3,5 milhões de habitantes, é um mercado limitado tanto em audiência como em recursos financeiros. Por isso, um dos objetivos destacados de Amenaza Roboto é promover a interação ente os países vizinhos do ponto de vista da produção tecnológica. 

“Existem vários desenvolvimentos que são totalmente úteis, mas não sabemos entre vizinhos. Por exemplo, a tecnologia que permite que tremores sejam detectados mais rápido e mais barato que a entidade estatal. Ou, por exemplo, Barbarita Lara, uma chilena que, quando ocorreu tsunami do mega terremoto no Chile, desenvolveu uma tecnologia que permite que os sistemas de comunicação continuem usando computadores e telefones celulares através de ondas de rádio,” descreve Dobrich.

O foco num conteúdo com abrangência na América Latina mira também na audiência e em potenciais patrocinadores e parceiros na região. De acordo com Warner, a estratégia faz sentido para superar as dificuldades no nível nacional.

"Nas economias menores, o maior desafio pode ser o fato de haver tão poucos anunciantes ou investidores em potencial, mas isso não significa que não seja possível construir um negócio de mídia", disse Warner.

Segundo Dobrich, Amenaza Roboto e Dobcast estão num processo de diversificação de receitas, para lutar por fundos internacionais e não depender apenas de publicidade e das idiossincrasias do mercado local:

“Eu dormi muito pouco nesses 3 anos, mas muito pouco em níveis ridículos, um pouco de 4 horas, mas se tudo correr bem no próximo ano, dormirei seis, sete. Foi difícil dormir, porque eu nunca pensei que teria de lidar com a parte empresarial de nada. Eu treinei para ser jornalista e fiz toda a minha vida jornalismo cultural. [...] Os desafios futuros são superar essa fase de maior esforço desses quatro para tentar ser o mais profissional possível e chegar a um tempo para ser um Beta 2.0".




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