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Cobertura de feminicídio atroz no México desencadeia debate sobre como a imprensa deve cobrir assassinatos de mulheres



Ingrid Escamilla, 25, foi brutalmente assassinada na Cidade do México, no bairro de Vallejo, em 9 de fevereiro. Seu corpo foi mutilado. No dia seguinte, fotos dos seus restos mortais foram publicados nas primeiras páginas do jornal La Prensa e do tabloide Pásala. Este último colocou no título "A culpa foi do Cupido".

Solidaridade nas ruas para Ingrid Escamilla. Foto: ProtoplasmaKid

As imagens também foram divulgadas nas redes sociais, o que provocou a indignação dos cidadãos e de vários grupos, organizações civis e de direitos humanos.

Numerosas demonstrações de solidariedade e protestos ocorreram no país, com mulheres exigindo maior proteção para si e para criticando a cobertura da mídia sobre o assassinato de Escamilla. Em uma marcha em 14 de fevereiro, os manifestantes incendiaram uma van jornal LaPrensa, exigindo que seu diretor pedisse desculpas publicamente por ter publicado as fotografias do cadáver.

Sobre sua política de publicação fotográfica, o diretor do La Prensa, Luis Carriles, disse ao Centro Knight que, como jornal, permanecerão dentro da lei e que estão dispostos a se adaptar às mudanças legais. 

“Continuamos como um jornal popular, continuamos sendo um jornal sério e comprometido e hoje nos encontraremos com líderes das organizações. Acreditamos no trabalho da sociedade, no jornalismo de paz e na construção de novas narrativas”, afirmou Carriles.

A organização que defende a liberdade de expressão Artigo 19 México disse que a publicação dessas imagens contraria toda ética jornalística e evidencia a urgência de um espaço de reflexão da união jornalística na cobertura de feminicídios. Disse também que a divulgação dessas imagens é uma forma de revitimização, que neste caso veio do mesmo Estado, vazando essas imagens para a mídia. Ao mesmo tempo, a organização alertou em sua declaração que não é a primeira vez que esse tipo de vazamento ocorre.

No caso das imagens de Escamilla, os suspeitos de vazar imagens para a mídia seriam seis funcionários da Procuradoria Geral da Cidade do México (FGJCDMX), informou o site La Silla Rota. A procuradora-geral adjunta para vítimas e serviços comunitários do FGJCDMX, Nelly Montealegre, informou que os suspeitos já estão sendo investigados.

O Ministério do Interior (Segob) informou em comunicado datado de 13 de fevereiro que investigará, com as consequências legais do caso, a mídia que promoveu o vazamento das fotos do corpo de Escamilla.

O Relator Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Edison Lanza, disse ao Centro Knight que "os meios de comunicação de massa têm uma obrigação de autorregulação com parâmetros éticos que podem ser conhecidos pelo público".

“No caso da manipulação da imagem de atos de violência com base em estereótipos e gênero, e de violência de gênero histórica em nosso continente, (...) deve-se estabelecer como esse tipo de informação é tratado e, principalmente, de imagens, atendendo justamente à necessidade que é uma obrigação de todos, dos Estados e também da mídia, segundo a Convenção de Belém do Pará, pelo combate a todas as formas de violência contra a mulher”, acrescentou.

Vários grupos, incluindo as Jornalistas Unidas Mexicanas, condenaram a publicação de imagens do corpo de Escamilla. "O caso de Ingrid, como muitos outros, é outro exemplo de como a mídia contribui para a violência diária contra as mulheres", afirmou o grupo via Twitter, em comunicado.

"Como jornalistas e como mulheres, dói e estamos indignados ao ver a flagrante impunidade com que certas empresas operam que divulgam diariamente informações que apenas violentamente estigmatizam, discriminam, estereotipam e revitalizam as mulheres", disseram as Jornalistas Unidas Mexicanas. 

No México, a taxa de feminicídio aumentou 137% nos últimos cinco anos, segundo dados da Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Segurança Pública (SNSP), publicado no site La Vanguardia. Somente em 2019, 976 queixas de feminicídio foram registradas, disse ele.

Alguns dias após o assassinato de Escamilla, em 15 de fevereiro, os moradores de um bairro da Cidade do México encontraram o corpo de Fatima Aldrighett, 7, em um saco plástico. A menina teria sido sequestrada ao deixar a escola em 11 de fevereiro. Sua família denunciou que a polícia não fez nenhum esforço para procurá-la quando foi comunicar o seu desaparecimento, publicou a BBC. 

Na manhã de 10 de fevereiro, quando as fotos de Escamilla foram publicadas, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador abriu sua entrevista coletiva pela manhã informando o público sobre a recuperação de dois bilhões de pesos mexicanos pela Procuradoria Geral da República após investigações de atos ilegais. Durante a entrevista, jornalistas perguntaram a ele como seu governo combateria os crescentes feminicídios no país.

A isso, o presidente respondeu: “Olha, eu não quero que a questão seja nada além de feminicídio, já está muito claro, muito foi manipulado sobre esse assunto na mídia, não em todos, é claro, aqueles que não nos veem com bons olhos, [que] se aproveitam de qualquer circunstância para gerar campanhas de difamação, tão claramente. Distorção, informações falsas, este é o caso”.

Posteriormente, o presidente enfatizou que é a favor da criação de uma procuradoria especializada na investigação de feminicídios, publicou El Heraldo de Puebla.




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