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Em um dia dedicado a debater como as organizações de notícias podem promover a confiança da comunidade e qual é o papel do jornalismo diante dos crescentes desafios democráticos em todo o mundo, os palestrantes do 27º Simpósio Internacional de Jornalismo (ISOJ) pediram às redações que repensassem o valor que oferecem ao seu público, bem como a forma de colaborar com ele para construir esse valor.
A questão de como eliminar a distância entre jornalistas e públicos foi um tema recorrente durante o primeiro dia desta conferência de dois dias — realizada nos dias 17 e 18 de setembro — e já surgiu na sessão de abertura do ISOJ com Tom Rosenstiel, professor da Faculdade de Jornalismo Philip Merrill da Universidade de Maryland e autor do livro recém-publicado "The Next Journalism".
Durante uma conversa com Rosental Calmon Alves, fundador e diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas — organizador do ISOJ —, Rosenstiel afirmou que o futuro do jornalismo depende da transição de um “jornalismo de atenção” para um “jornalismo de valor”.
Como ele explicou, durante décadas o jornalismo baseou seu modelo de negócios em chamar a atenção do público e vender aos anunciantes o acesso a ele. No entanto, à medida que a internet fragmentou os públicos e a publicidade migrou para as plataformas tecnológicas, esse modelo praticamente entrou em colapso.

Tom Rosenstiel no 27º Simpósio Internacional de Jornalismo, 17 de setembro de 2026. Patricia Lim/Knight Center
Agora, o jornalismo precisa repensar não apenas como gerar receita, mas o que oferece ao público em primeiro lugar, afirmou Rosenstiel. Ele enfatizou a importância de o jornalismo ser útil para a vida das pessoas e citou exemplos como o Wirecutter e as seções de culinária do The New York Times, produtos que, segundo ele confessou, se tornaram essenciais em sua própria vida cotidiana.
“O que as pessoas precisam é de um jornalismo que as ajude a viver suas vidas e a melhorar suas comunidades”, disse Rosenstiel.
Elizabeth Green, diretora-executiva e fundadora da Civic News Company, apoiou essas ideias em sua palestra e propôs um plano de três pontos para os jornalistas reconstruírem seus modelos de negócios: ter clareza sobre o valor que se oferece; construir um modelo econômico que sustente esse valor; e contar com a estrutura de governança e o capital adequados para trabalhar com integridade.
“O problema com o tipo errado de governança e capital é que eles se acham Deus, quando o verdadeiro Deus aqui deve ser o valor que agregamos a pessoas reais e concretas”, disse Green.
Diferentes formas de atender ao público
A ideia de diminuir a distância entre o público e os jornalistas permaneceu presente durante o painel “Como reconstruir a confiança: jornalismo centrado nas comunidades em uma era de desinformação, crises e incertezas”, no qual os palestrantes descreveram como as organizações de notícias geram valor ao desenvolver relacionamentos duradouros com as comunidades que atendem.
Jody Chong, diretora executiva da City Bureau — uma redação sem fins lucrativos sediada em Chicago —, explicou como a organização busca preencher lacunas de informação por meio de serviços como guias sobre as operações de controle migratório na cidade. O veículo também criou a Documenters Network (Rede de Documentadores), que capacita membros da comunidade para cobrir reuniões públicas.
“Eles combinam as experiências vividas e as redes pessoais de um membro da comunidade e vizinho com a curiosidade inata de um jornalista e o treinamento necessário para produzir informações precisas”, disse Chong.
Martina Guzmán falou sobre a VERDAD, uma ferramenta baseada em inteligência artificial que ela desenvolveu para detectar a desinformação divulgada por emissoras de rádio em espanhol nos Estados Unidos. Ela expressou sua esperança de que a tecnologia se torne parte de um sistema de alerta precoce que avise os jornalistas sobre a desinformação antes que ela se espalhe.
Nina Weingrill, jornalista e pesquisadora da Democratic Information Governance (D.I.G.) — organização que busca melhorar a qualidade das informações produzidas durante crises e eventos de grande escala — falou sobre sua pesquisa recente sobre as grandes enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, Brasil. Durante o desastre, os jornalistas colaboraram com as comunidades por meio de diversas plataformas para transmitir informações.

Madeleine Bair no 27º Simpósio Internacional de Jornalismo, 17 de setembro de 2026. Patricia Lim/Knight Center
Durante palestras de destaque com fundadores de redações orientadas pela comunidade nos Estados Unidos e em Portugal, líderes de mídia deram outros exemplos de como os jornalistas podem repensar seu relacionamento com o público.
Catarina Carvalho, editora e fundadora da Mensagem de Lisboa — um veículo de notícias hiperlocal em Portugal — explicou que sua equipe organiza eventos de jornalismo ao vivo em que membros da comunidade compartilham suas histórias pessoais no palco.
Um dos participantes foi um homem que se casou com uma mulher romani e teve que fugir com ela depois que os pais dela ameaçaram matá-los. Outro contou como se tornou supermodelo depois de crescer em uma favela.
“Quando as pessoas veem que nossas histórias são reais, que colocamos essas pessoas no palco, elas nos mostram que confiam em nós; isso une as pessoas”, disse Carvalho.
Madeleine Bair, fundadora e codiretora executiva do El Tímpano — uma organização de mídia que atende imigrantes latinos e indígenas maias na região da Baía de São Francisco —, observou que o veículo costuma levar seu jornalismo a espaços comunitários, em vez de esperar que as pessoas procurem suas histórias.
Por exemplo, durante o maior festival do Dia dos Mortos da Área da Baía de São Francisco, El Tímpano criou um altar comunitário onde as pessoas podiam compartilhar lembranças de seus entes queridos falecidos.
“Em vez de se sentirem impotentes, com medo ou vitimizados, os membros da comunidade nos dizem que esses programas fazem com que se sintam empoderados, conectados e parte de uma comunidade mais ampla”, disse Bair.
Em outro painel, Adam Ganucheau, editor-executivo e diretor de conteúdo do Deep South Today, afirmou que seu veículo de comunicação constrói a confiança da comunidade por meio de um jornalismo que promove a responsabilização. Ele destacou uma reportagem recente sobre os níveis de chumbo em parques infantis e os esforços do veículo para se conectar com os moradores locais por meio de mala direta e eventos presenciais.
Essa mesma ênfase em entender os públicos surgiu em um debate sobre a cobertura das próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Anna Johnson, chefe da delegação da Associated Press em Washington, observou que os jornalistas devem se concentrar em entender as preocupações dos eleitores, em vez de focar a cobertura exclusivamente nos candidatos ou nas figuras políticas.
“Os eleitores são o foco da nossa cobertura, não os candidatos nem o presidente”, afirmou Johnson. “E, embora a presidência certamente faça parte desse ecossistema... conversamos com os eleitores para entender melhor o que os preocupa e o que realmente importa para eles.”
Essa mudança em direção a um jornalismo centrado no público também transcende o âmbito das redações tradicionais. No ISOJ, jornalistas independentes e criadores de conteúdo destacaram o papel cada vez mais importante da economia dos criadores e como ela transformou a forma como algumas pessoas consomem notícias.
Liz Kelly Nelson, fundadora do Project C — uma organização que apoia jornalistas independentes que também são criadores de conteúdo —, observou que muitos consumidores de notícias se afastaram da mídia tradicional durante a pandemia de COVID-19 e voltaram sua atenção para criadores independentes.
“Não foi apatia”, afirmou Kelly Nelson. “Era a sensação de que o jornalismo institucional era elitista demais, complexo, tendencioso, deprimente e irrelevante; exatamente o oposto do que os criadores representam.”
Por meio do Project C, Kelly Nelson ajuda jornalistas independentes a construir carreiras sustentáveis. Uma das criadoras apoiadas pela organização é Becky Bullard, fundadora do Democrasexy, um projeto que busca desmistificar a política do Texas por meio de vídeos no Instagram, eventos ao vivo e outros formatos.
“Chamem do que quiserem”, disse Kelly Nelson. “O trabalho dela é um ato de jornalismo.”
O segundo dia do ISOJ deste ano se concentra na inteligência artificial, na inovação e no futuro das notícias, com painéis que contarão com a participação de jornalistas e líderes do setor, incluindo Jonathan Greenberger, editor-chefe global da POLITICO; Allison Murphy, diretora de operações (COO) da Axios; Sisi Wei, diretora de impacto da CalMatters e da The Markup; e Zach Seward, diretor editorial de iniciativas de IA do The New York Times.
Mais de 400 pessoas participaram presencialmente do ISOJ na Universidade do Texas em Austin, enquanto cerca de 400 participaram virtualmente.